sábado, 12 de fevereiro de 2011

E as plantas cresceram...

Ela queria ir. Mas todas as (pouquíssimas) pessoas com quem comentou desse desejo fizeram beiço torcido, olhos de recriminação e dúvida. Mas ela queria dar parabéns e levar um presente que comprara pra ele. Algo que mais ninguém iria entender, a não ser ele, e ela.

Ela não tinha medo dele. Conversavam por vezes, trocavam emails e mensagens, numa boa. Não sentia medo da casa em si, apesar do senso comum mandar que ela tivesse medo, raiva, receio, rancor e qualquer outro sentimento escuro que se tira do baú de mágoas.

Mas ela tinha medo... não era medo, era um receio temeroso, mas também ansioso, quase animado, mescla de sentimentos distintos e, de novo, segundo os outros, inconciliáveis, das plantas. Ela tinha receio das plantas.

Reviu amigos e primos (dele) alguns com mais entusiasmo do que a outra parte envolvida no cumprimento, conversou, sentiu-se acolhida, matou saudades, soube boas notícias- Vamos casar em julho! Ouviu outras que a deixou menos alegre: Eu e a Gi terminamos. Uma pena, queria tanto rever a Gi, prima postiça loira, de cidade pequena com todas aquelas coisas de caipira, gentil, afetiva, doce, frágil, delicada, mãe, louca. Uma amiga. Uma pena.

A casa estava linda, toda refeita dos buracos que ela deixou. Geladeira, móveis e quadros novos. Novos amigos, amigAs, que arranharam alguma sensação de território invadido, mas no parabéns, com amigos rodeando ele, ela soube que ele estava feliz. E isso a fez se sentir grata. Porque gratidão é alegria temperada com Deus.

O banheiro de dentro estava ocupado e ela foi lá fora, passou pela cozinha e reconheceu dois sentimentos que disputavam lugar. Era bom não ter que arrumar aquela bagunça. Era ruim não ter nada a ver com aquela bagunça, a bagunça que antes fora seu território, sua responsabilidade, sua caverna, seu corpo. Ali fora da cozinha viu primeiro o manjericão florido, enorme, como são as plantas “pragas” que crescem a revelia de cuidado e de sombra.

Mas ao lado da horta que o manjericão tomou todo pra si estava ela, uma plantinha que ela tinha plantado bebê, e que crescera para além dela. Devia ter dois palmos de altura quando plantada, estava com mais de 1 metro e 70.

Ele veio chegando com o primo e eles dividiram a surpresa divertida e quase orgulhosa desse crescimento. “O tamanho que ela ficou!”, “Sempre penso em você quando vejo o tamanho dela”.

E de novo sentimentos tristes e profundamente felizes deram as mãos dentro dela. E quando isso acontece dá trabalho. Confunde, cansa o sono. A alegria e a tristeza quando se fazem companheiras exigem bastante da gente.

Se aquela planta cresceu tanto, o que mais poderia ter crescido? O que cresceu? A certeza da semente vingada, o pesar pelos frutos que poderiam ter sido.

E ela resolveu escrever. Para que felicidade e tristeza pudessem dormir juntas, como deve ser.
(Á ele, que plantou tanto comigo.)
Por Mirabelle.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Tarde lilás


Era quinta feira, quase final do dia de trabalho. A cabeça andava na velocidade usual de dia-de-semana. Pensamentos em pistas de alta velocidade. Flashes intensos de todas as atividades a serem feitas, algumas das já riscadas da lista.
Me preparava para sair correndo como sempre, fazer xixi rápido, pegar tudo de uma vez, fazer agenda, chave e celular cair quando fecho a porta, afobada.
E de repente, não mais que de repente a música do Gil chegou, por baixo da porta e estranhei um sentimento novo, quase com cara de desconhecido. Mas era bom, muito bom.

Aqui dentro a água aplainou, os movimentos, pré-prontos para disparar foram desligados da tomada e percebi, bem dentro, que eu tinha todo o tempo, todo o tempo para fazer o que eu quisesse.

Reguei as plantas, arrumei revistas e saí devagar. No carro ouvi Miles Davis e o jazz acalmou o trânsito e o calor do fim da tarde.
Os planos da noite mudaram, mas não teve problema, ele demorou, mas esperei, fomos para outro lugar e comemos, de surpresa comida japonesa com o tempero especial da fome das 10horas da noite. Tomei banho devagar e fiquei mais limpa que antes. Camiseta e cheiro de sabonete, choveu.

E de repente, não mais que de repente descobri o nome do sentimento novo com a ajuda do Gil.

A paz
Invadiu o meu coração
De repente me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"

Que coisa é essa, a paz ser um sentimento assim, quase irreconhecido, quando chega sem avisar.
Por Mirabelle

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tempos


Droga! Eu fico tão feliz (e preocupada) quando pairo sorridente sobre as tarefas cotidianas mais banais, contente por ir na padaria, animadíssima quando encontro vaga para estacionar na terceira volta que fiz no quarteirão para ir ao banco, grata à uma força maior quando sento no sofá na hora da minha série favorita etc e tal.

Eis que as férias chegam, a gente sai da realidade de marmita, vai para um lugar novo, conversa com gente diferente e volta.

Desde quando o dia dia de qualquer mortal passou a ser a saga de uma secretária com uma chefe digna do Diabo veste Prada?

Porque se você tem coisas comuns de qualquer cidadão urbano como conta no banco, de celular, um cartão de crédito que pode ter pontos convertidos em milhagens, dois emails, uma conta no Facebook, umas 7 contas pra pagar (água, luz, condomínio, algum curso, prestação de alguma coisa) seu dia é uma jornada tripla: trabalho, casa e secretária executiva da sua própria vida.

Você tenta resolver a m... da NET que não está funcionando, por celular, nos seus 40 minutos de almoço, ao mesmo tempo em que estaciona o carro, pega um papelzinho de estacionamento que voa com o vento e fala:
“de 15 cm, peito de peru, não, atum, tomate, molho de mostarda com mel. O quê senhora? Não, não é com você! Tô falando com a moça do Subway. Ok senhora, desculpe a demora, vou pedir algumas informações por motivos de segurança. Quente, e uma coca light. Pode me passar o número do seu CPF? 223... Não temos light, pode ser zero? Senhora... seu CPF. Zero, pode ser...322 255 167. Como senhora? 14,90, cartão ou dinheiro? Eu já digitei meu CPF. Você não tem aí? Senhora, cartão ou dinheiro?”.

O incrível das férias são os tempos. Tempos largos, preguiçosos, frouxos, estendidos, não medidos. Pode-se sentar para ler e levantar 3 horas depois, ficar num bar 5 horas, conversar por 3:30h (tomando cerveja). A fome muda de lugar no dia, o sono se ajeita diferente aparecendo em lugar novo e deixando a noite quente para outras festas.

Esses tempos ilimitados são para mim como um doce que quanto mais se come mais fica gostoso. O impressionante é quão rápido o relógio acelera assim que se volta, como se as contas, os emails, os telefonemas, os dentistas e tudo o que não foi feito exigisse com ferocidade a imediatez de cada coisa e reconhecemos sem gosto a sensação de ir dormir com a conhecida impressão de deixar sempre mais do que a metade da lista por fazer.

A não ser que você seja um caso de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) grave para quem riscar itens de uma lista seja uma satisfação em si mesma, a pergunta: "pra quê tudo isso" se mantém uma incógnita.

O que vale a pena mesmo? Sem valer depois? O que vale na hora? Beijo. Falar outra língua (e isso inclui todas as lições de casa necessárias). Protetor solar até a noite. Chegar num lugar novo. Conversar com gente diferente. Conversar com amigo antigo. Vídeo engraçado do Youtube. Fazer um bolo e ficar lindo. Comer uma comida desconhecida. Barulho da latinha de cerva abrindo. Marquinha de biquini. Ler.
Mas se bem que pra ir para um lugar novo, conhecer gente diferente e conversar em outra língua, dar um beijo com protetor solar a noite, comendo maionese de wasabi, os pontos do Multiplus convertidos em milhas ajudam bem...

Por Mirabelle

domingo, 19 de dezembro de 2010

Espírito natalino


O ano vai acabar, vai acabar comigo também. Estou cansada, quase exausta, meus ombros já repletos de fardos tem ainda de sustentar sobretudos que pesam quilos, amortecidos por isolantes e incontáveis camadas de lã, o pescoço rígido pelo cachecol. Tem ainda de caminhar com bujõezinhos humanos erguidos: eles se recusam a caminhar ou a estar no carrinho por centenas de metros, obstinados e bem abrigados, confiando nos bíceps, omoplatas, seja lá o que e onde estão essas partes todas debaixo de tanta roupa.

Mas na sala de minha casa há um pequeno pinheiro, O-Tannenbaum, vivinho e verdejante, entalado dentro de um vaso. Ele também está ali aprisionado pelas estrelinhas, esferas brilhantes, luzes minúsculas e outros pequenos artefatos de madeira, papel ou pano dependurados, esperando, por favor, que tudo isso acabe e ele possa ao menos ser colocado no jardim, destino menos cruel que o lixo – orgânico, of course, pois nos arredores há coleta seletiva e politicamente correta especial para pinheirinhos descartados entre os dias 7 e 15 de janeiro.

E o pior de tudo, minha gente, é que todo mundo acha pinheiro e mãe exausta uma coisa linda! Não é lindo? Não é meigo? Não é fofo?

Duas palavrinhas: HELP ME.

Tá bem, não era bem isso o que eu queria dizer. Vou retificar: FELIZ NATAL!


Afinal, o que seria do espírito natalino sem as mães exaustas e os pinheirinhos aprisionados?

Um bom natal para todos, em especial para as mães, aquelas que encontram a paciência e o tempo que os outros não têm para organizar o amigo secreto da família, decorar a casa, montar o presépio e a árvore de Natal, comprar aquele presente que ficou faltando, preparar a ceia e ainda estarem lindas e radiantes em plena meia-noite na próxima sexta-feira depois de trabalhar toda a semana. Papai Noel de saco cheio (mães, never!) pra todo mundo e vamos que vamos!

W.W.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sertanejo universitário

(que belezura de estampas!)
“O doce do seu beijo,
Enfeiticou meu coração,
Vivo noite e dia, numa nuvem de paixão”

“Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração.
Você é raio de saudade,
Meteoro da paixão”

Não! Você não morreu e foi para o inferno das piores cantadas do mundo.

Você também não está lendo trechos dos finalistas de um concurso de textos de amor do ensino fundamental.
Essas estrofes são pérolas da nova tendência na música brasileira: o sertanejo universitário.

Eu já tinha ouvido algumas partes dessas músicas e ficado perplexa com a riqueza das rimas, a delicadeza no tratamento dos temas como por exemplo em:

“Você diz que não me ama, você diz que não me quer
Mas ficar pagando pau, qual é que é.
Todo dia seu teatro é exatamente igual, você finge que me odeia
mas no fundo paga - pau"

Mas eu pensava... ah, vai ver que tá na moda, em especial entre as mulheres, porque os cantores devem ser bonitões...

Vamos colocar da seguinte maneira: misture o que sobrou da tradição do homem do campo, do interior (isso é churrasco e cerveja) com o que há de pior do universo urbano (aqui caluniosamente chamado de universitário).
Resultado: uns caras que exageram no churrasco e na cerveja vestindo calça skinny e camiseta bordada. Jesus me abane aquela mulherada pagando pau (para usar termos locais) para os moçoilos roliços envoltos apertadamente em seus jeans.

Alguns amigos músicos se queixam do agressivo mercado musical no qual as grandes gravadoras e mídias injetam guela abaixo do público produtos de péssima qualidade. Eu discordo, acredito na escolha das pessoas e acho que algo só faz muito sucesso se ecoa, se faz sentido para muita gente.

É curioso como certos estilos musicais abraçam determinados valores e maneiras de falar das coisas. O reggae fala de paz, de humildade e de igualdade, forró fala de chamego, de carinho e de calor, bossa nova fala de amor romântico, de tristeza séria.

O sertanejo universitário tem uma pegada romântica-Wando, tipo: arrebatamento de paixão, calcinhas ao palco e tal misturado com desdém, com desprezo pelo outro, no maior estilão: “tenho 14 anos, sou + eu e nego todos os meus sentimentos”.

O sertanejo universitário está fazendo sentido pra muita gente, provavelmente não só pela pegada sacaninha e animada de balada, mas também por essa maneira de tratar os sentimentos e os relacionamentos.
Metade das músicas são Wando-paixão-abatjour cor de carne, e a outra metade são beijo-me-liga.

Perdão pela interpretaçãozice da reflexão, mas se pessoas que tem mais de 18 anos e não tem diagnóstico de transtorno bipolar se identificam com o que essas músicas falam, é porque estão vivendo ou querendo viver suas relações dessa maneira: ou sou tomado por uma paixão arrebatadora ou desdenho e desprezo o outro.

E não é que Fernando e Sorocaba entendem profundamente o que Baumann fala sobre o amor líquido?

Entre o meteoro da paixão de Luan Santana e o desprezo do João Bosco e Vinicius eu fico com Cazuza, que diz coisa menos exuberante, mas mais de verdade:

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva

Pagando Pau- Fernando e Sorocaba
Meteoro- Luan Santana
Ei. Psiu! Beijo me liga- João Bosco e Vinicius
Todo amor que houver nessa vida- Cazuza
Por Mirabelle

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Solidão



Ele se foi. Chega minha solidão que se enche de crianças, brinquedos, risos e rinhas infantis. Se esquece entre as conversas com amigas, telefonemas triviais, visita à vizinha com pretexto inventado. Ela fica ali, companhia discreta, falando aos murmúrios quando me encontro mais quieta. A solidão vai arando espaços, é também semeadura, colheita, cestos cheios de gente que me enroupa, a mãe escreve, o irmão aparece, o pai, o tio, o avô telefonam. Os minutos a mais para contar minúcias desimportantes a cada um deles, construir relação, fios invisíveis cerzidos à distância, também fazem parte do espaço: são flor. Meu colo fica mais disponível, o gato também aproveita. Nos descampados até um banho turco tem, barulho das águas de meus silêncios, mágoas afogadas em piscinas que dão pé. Mas é só suor, não tem choro. O descarrego do peito veio com a sauna haman, do lado de dentro está tudo íntegro, não tem o que desatar.

Supermercado ou escadas de metrô são desafios cuja única possibilidade é encarar. O contratempo, o imprevisto que arruína o dia, não passa disso: algo que vai contra o tempo,não vira drama, acaba como uma cena do próximo capítulo que você não viu. O tremor-raiva-temor é barrado na porta por ela, solidão, e não penetra minha impecável ordem emocional desses dias.

Então ele irá voltar e poderei pousar o estandarte e ser instável, imperfeita, inconseqüente, levemente mais irresponsável novamente. Irei gritar-lhe por dentro, chamá-lo de todos os nomes odiosos e pronto: redigirei a mais bela declaração de amor eterno de todos os tempos. Até a próxima viagem.

Womber Woman

domingo, 7 de novembro de 2010

Antigo caso de amor


“Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar...
Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz”

(Tarde em Itapoã, Vinicius de Moraes e Toquinho)


Não tem jeito, minha parte adulta ainda não conseguiu entender que as férias não começam com os enfeites de natal e não vão mais até depois do carnaval.

Mas não adianta, mesmo que o trabalho continue, igual, de novembro à janeiro, assim que as luzinhas de natal acendem nos shoppings, meu coração entra em férias.
Minha bolsa com protetor solar, chapéu e livro fica pronta e a postos para esses 3 meses.

Com o calor vem a marquinha de biquíni, as mesas na calçada e a vida fica mais carioca. Vontade de sair da sala de TV e ir pra varanda. Os dias trocam de trilha sonora, vai-se Jamie Cullon e vem Marcelo D2, vai-se o vinho e bemvinda as caipirinhas e cervejas aguadinhas.

Tenho pra mim um cheiro de verão. Esse pefume vem sempre de algum lugar com mato, quando se passa de carro e sente-se esse cheiro sabe-se que o calor chegou. É um cheiro doce, quente. Mas quando a gente respira mais forte pra cheirar melhor, ele passa, escapa.

Um dia descobri o nome do meu cheiro de verão, vem de uma flor que se chama Lírio do pântano, uma flor branca que nasce em alagados e perfuma algo misturado de Gardênia com Jasmim.

Meu verão perfuma assim, e também àquele incenso azul indiano de caixinha.

O verão me vem como um soninho hipnótico. Quando se toma sol lendo e está muito calor vem vindo uma moleza, uma preguicinha e com o carinho que o vento morno faz, o sono é embalado por cheiro de sundown, areia e amarelo.

Algumas fotos da minha infância me mostram em uma cadeira de praia, embaixo do guarda-sol, coberta por uma toalha, dormindo.

Não é uma lembrança que mora dentro da cabeça, mas uma memória que repousa na minha pele. Sem querer o verão, o sal e o vento me ensinaram o arrepio e foram meus primeiros amantes. Um caso de amor que dura até hoje.

(à minha amiga Fê, maior fã do sol que eu conheço, e à prima Ina, que leva tomar sol mesmo a sério!!!)

Por Mirabelle