terça-feira, 19 de abril de 2011

Pessach Páscoa



Fui percebendo ao longo do tempo que a Páscoa sempre trazia mudanças importantes, não necessariamente boas, mas grande transformações.



Pessach, a Páscoa judaica, comemora a libertação dos filhos de Israel após mais de dois séculos de cativeiro no Egito. O Êxodo do Egito tornou-se o ponto central da história judaica, pois cristalizou a identidade nacional e marcou o nascimento dos judeus como um povo livre.
Assim Pessach representa um movimento ativo para deixar a escravidão rumo à liberdade.
Egito é acima de tudo um símbolo, por representar um lugar que “já foi bom” e deixou de ser. As analogias se tornam mais interessantes ainda se reconhecermos que a etimologia hebraica da palavra Egito- mistraim- quer dizer “lugar estreito”.

Não gostamos de sair, de mudar. São a estreiteza e o desconforto que nos convencem de que não existe outra saída. Mas para onde ir? Se não se conhece nada diferente de si mesmo? Como seguir rumo à “terra prometida”, ao futuro, se entre o presente e ela existe um fosso, um mar. Os portões do passado se fecham, os do futuro não estão abertos e o corpo experimenta a mais temida das sensações- o pânico de se extinguir.

Encurralados diante do mar, o povo assume algumas posturas possíveis, sem saber o que fazer, se divide em quatro acampamentos. O primeiro quer voltar, o segundo quer lutar, o terceiro quer jogar-se no mar, o quarto se mobiliza em oração.
Mas se nenhuma dessas condutas é apropriada, qual o caminho então? A resposta de Deus é igualmente decisiva e intrigante, disse à Moisés (o empreendedor da saído do lugar estreito(Ex: 14:15): “Diga a Israel que marche.”
Marchar, dar andamento, a que? Para onde? Que solução óbvia é essa que a divindade apresenta, pela qual nenhum acampamento consegue dar conta de uma saída?
Conhecemos o final do relato bíblico em que o mar se abre. Mas, para a Midrash- comentários alegóricos dos rabinos- a abertura do mar se dá de uma maneira muito peculiar. Um homem chamado Nachshon bem Aminadav, que não sabia nadar, começou a entrar na água. Estas, no entanto, não se abriram num primeiro instante. Somente quando o homem já estava com a água no nível do nariz, as águas se abriram.
Nascshon compreendeu a recomendação de Deus: “marchem”. O futuro existe se vocês marcharem. Saber abrir mão desse lugar conhecido na fé de que outro se constituirá é saber dar o passo que leva até onde “não dá mais pé”. Enquanto der pé, estaremos estacionados em acampamentos.
Esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida garante a passagem pelo vazio que magicamente se concretiza em chão sob nossos pés. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível.
Quando nos percebemos expostos á estreiteza, e quando está consciente de que seu desconforto provém dela, surge então a possibilidade de acampar em frente ao mar. A partir desse lugar de improbidade e angústia, olhamos o horizonte.
Há uma entrega, um despojamento nessa margem, que não só desnuda o corpo, mas o modifica. Essa metamorfose nos assusta com a possibilidade de estarmos abrindo mão da nossa integridade e identidade.

De maneira simbolicamente parecida a páscoa cristã fala de passagem e renascimento, transformação de um estado a outro.
Pessach sob essa interpretação é uma metáfora belíssima de qualquer mudança. As mudanças importantes, que nos transformam, são aquelas nas quais nos deixamos para trás e temos a coragem de marchar para dentro do oceano desconhecido.
Freud falou sobre essa perspectiva na vida inconsciente. Mesmo quando estamos certos de que algum comportamento ou atitude não nos serve mais, isso é, se tornou o “lugar estreito”, um lugar de escravidão, lutamos com unhas e dentes para manter o padrão conhecido, seja de um comportamento, reação ou relacionamento.


Freud chamou de resistência, de manter o sintoma. Mas essa imagem de olhar o mar sem saber o que fazer me parece mais poética.
Essa interpretação trazida pelo rabino Nilton Bonder me faz sempre pensar que em momentos difíceis de mudança, Pessach nos oferece um exemplo de coragem e fé, nos dizendo: "Diga a Israel que marche!"


Por Mirabelle

Interpretação de Pessach por Nilton Bonder, no livro "A alma imoral"

1998, ed. Rocco

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Repelente de Homem




Repelente de Homens

Vestir-se ofensivamente á la Sartorialist, o que resultará em repelir os membros do sexo oposto. Tais vestimentas incluem, mas não se limitam a: calças saruel, boyfriend jeans, macacões jeans (repelente de humanos), ombreiras, roupa inteiriça (mesma cor), jóias com animais macabros (morcegos, moscas e aracnídeos em geral) e clogs.


Garota 1- O que vai usar para a festa?

Garota 2- Minha querida calça utilitária verde de cós caído!

Garota 1- Oh, so we´re man repelling tonight?


Pequena legenda de moda: não se ofendam nem se ressintam, mesmo quem assina Vogue e se debruça sobre o encadernado com caneta grifa-texto em mãos não entende muitos dos termos usados em moda, eles são mutantes, misturam inglês com francês e servem para “criar novos conceitos”. Mas algumas coisinhas são mais permanentes, (para entrar no clima) então, Voilá!


Sartorialist- fotógrafo que tem um blog no qual posta diariamente fotos de pessoas que encontra na rua. Pessoas que ele considera estilosas em lugares incríveis, Milão, Paris, NY, Estocolmo. Pra pegar o espírito da coisa: se você gostar de moda e ele tirar uma foto sua, bem, você pode morrer feliz!

Calça saruel- com o cavalo caído, baixo, as + esquisitas são aquelas que apertam no tornozelo, parecem uma mistura da calça do Alladin com a do Peter Pan.

Clogs- tamancos com salto grosso e alto, lembra um look tipo prostituta na hora de estender roupas no varal.


Uma moça em NY (tinha que ser) fez um Blog que é um sucesso que se chama The Man Repeller. Neste Blog ela discute uma questão interessante que sempre me ocorreu, mas eu tinha vergonha de falar. A grande e inegável verdade de que muitas vezes as mulheres que se veste bem de acordo com a moda... repelem os homens. Minhas amigas mais estilosas são aquelas para as quais os homens olham com uma expressão que mistura susto e interrogação. A famosa cara de “não entendi!”


Reflexões pertinentes:

Meu avô- “a moda é feita por gays. Os gays querem deixar as mulheres feias para sobrarem mais homens para eles.”


Uma amiga estilosa- “Acho que a gente se veste estranha mesmo como um protesto, tipo: eu uso informações de moda porque não quero ser aquela de calça jeans e blusinha preta, um objeto sexual para os homens.”


Super válido o comentário da amiga. É verdade, nós, mulheres interessantes que entendemos de tendência não queremos nos curvar ao look Paniquete, nem ao que “tá usando na novela”. Mas o resultado dá na mesma! Só os gays olham pra você quando se veste com sobreposições de estampas, óculos duas vezes o diâmetro da sua cabeça, sandália com meia e carteira de madre-pérola com couro verde. And uma fivela com flor de tecido no cabelo.


Penso que a beleza que surpreende é aquela inesperada, nova, fresca. O clássico pode ser belo, mas é conhecido. Quando algo completamente novo te arrebata de beleza é uma experiência digna de fazer a vida valer a pena. E essa beleza acontece em pinturas, esculturas, design, linguagem, música. E moda.

Mas colocar tudo de mais estranho junto pode ser interessante para quem “entende de moda”, mas eu gosto da moda que ELES também entendam.


Por Cocobelle

terça-feira, 5 de abril de 2011

Minha reinauguração


Depois de albergar em minhas entranhas duas novas vidas em gestações completas (18 meses), depois de exercer a amamentação materna por períodos que considero prolongados (10 meses + 18 meses = 28 meses), em exclusiva nos primeiros quatro e cinco meses de vida das criaturas (isso quer dizer que você foi a única fonte de alimento delas, nada de mamadeiras, frutinhas ou comidinhas várias, nem água!), fazendo seus peitos e tudo o mais que está conectado a eles servirem à demanda de leite a QUALQUER hora do dia ou da noite, depois de mais de cinco anos, sinto que volto a ser dona do meu corpo.

Sim, agora posso comer o que eu quiser, fazer o que eu quiser (andar de bicicleta e praticar esportes, por exemplo), mas , mais que isso: voltei a ter um corte de cabelo com o qual me identifico, o piercing voltou a figurar na barriga e, tcha-ram, com algo de esforço e um mês de persistência na dieta, perdi os quilos residuais da gravidez e voltei ao meu peso pré-bebês.

O corte de cabelo foi uma re-conquista de uns seis, talvez oito meses atrás. O que acontece é que eu gosto de cabelo curto, com cortes transadinhos e modernetes e, quando você tem filho, fica com cara de mãe, fica toda meiga, deixa o cabelo crescer e tem tropocentas outras prioridades que ocupam seu tempo, sua mente e sua saúde mental antes de pensar em conseguir ir ao cabeleireiro, ou ainda em conseguir encontrar um cabeleireiro que literalmente faça a sua cabeça (alguns exemplos de outras prioridades: acordar muitas vezes de madrugada para saciar o apetite mamífero dos seus rebentos; preparar purês de legumes e frango ou carne ou peixe – esse só a partir do oitavo mês – e ou ovo – primeiro só a gema, ao menos uma vez ao dia; assegurar que sua geladeira esteja abastecida para a tarefa anterior, assegurar que sua casa dispõe de fraldas, lencinhos, cremes hidratantes hipoalergênicos ou qualquer outra parafernália infantil ou produto que de repente irrompem na sua vida como uma primeira necessidade). E leva tempo até a poeira assentar e você voltar a ter espaço interno para pensar em si, e não só neles.

Cabeleireiro encontrado (obrigada Iratxe, a basca-argentina que conquistou minhas madeixas!), que tal tapar aquela cratera que virou o buraco onde havia o meu piercing, por exemplo, com o piercing? (Meninas, tirem o piercing quando engravidarem...) Ok, mais uma pequena conquista.

E então eu, que já havia me resignado a que esses quilos residuais fossem parte de mim, que nem pensava neles e que não me pesava há séculos, um dia o fiz e me assustei. Decidi que assim não dava, pô!, ao menos 1,5 kg eu tinha que perder. E lá vem a dieta. Pela primeira vez na vida realmente eliminei alimentos da minha vida (pão, chorizo, jamón, laticínios integrais) e fechei a boca. Na fronteira dos trinta o corpo já não reage tão rápido, antes bastava comer direitinho e pronto, agora não. Mas reage, vejam só, e sem sofrer horrivelmente consegui me livrar, até o momento, de uns 3 kg.

E voltei a morar em mim, a me reconhecer por fora e por dentro. Somando os tempos do começo deste post, descubro que meu corpo passou 46 meses a serviço de meus pequenos amores. Quase quatro anos! Pensando que a aventura toda começou pouco mais de cinco anos atrás, tive nesse período algo como uns 12 meses de integridade física. É pouco tempo, muito pouco tempo para reorganizar seu espaço interno e encontrar forças para qualquer outro projeto que você tenha ou queira desenvolver e que não passe pelos filhos.

Mas agora a casa – eu!, esse lugar onde moro – está em ordem e vai aos poucos entrando em ritmo de festa, começando a arregaçar as mangas para a obra que a acompanha. Há momentos em que a gente tem que se recolher e pode engordar sem sentir culpa sim, mas voltar a brilhar não tem preço. E melhor ainda se você puder abrir as cortinas for sem pelos, pois como prêmio por tudo isso (ou só para encontrar um bom pretexto para por a mão no bolso) estou fazendo depilação a laser, um maravilhoso investimento em mim mesma e em todas as saias que irei usar na minha reinauguração.

E música, maestro, que o espetáculo vai começar!


Womber Woman

segunda-feira, 14 de março de 2011


Dizer chega é dizer basta. Quando aquilo não cabe mais dentro de si. Ou quando você não cabe mais ali onde está. Haverá chegado a hora de despendurar chuteiras, sapatilhas, botas, chinelos ou mesmo pantufas e dar o passo para tirar o pó daquela velha ideia estacionada numa prateleira. Passo de grand jetée, passo que marca gol.

"Chega" também é final da viagem: um porto, uma estrada, caminho estrelado, via láctea. Talvez seja liberar espaço para ir até o final, deixar afundar os lastros entre conchas e areia para poder voltar à superfície - qual?

"Chega" é um não. Redondo e rotundo, clarividente.

Qual é mesmo o "não" que você tinha que dizer hoje e não disse?



by Darling Darling

sábado, 12 de fevereiro de 2011

E as plantas cresceram...

Ela queria ir. Mas todas as (pouquíssimas) pessoas com quem comentou desse desejo fizeram beiço torcido, olhos de recriminação e dúvida. Mas ela queria dar parabéns e levar um presente que comprara pra ele. Algo que mais ninguém iria entender, a não ser ele, e ela.

Ela não tinha medo dele. Conversavam por vezes, trocavam emails e mensagens, numa boa. Não sentia medo da casa em si, apesar do senso comum mandar que ela tivesse medo, raiva, receio, rancor e qualquer outro sentimento escuro que se tira do baú de mágoas.

Mas ela tinha medo... não era medo, era um receio temeroso, mas também ansioso, quase animado, mescla de sentimentos distintos e, de novo, segundo os outros, inconciliáveis, das plantas. Ela tinha receio das plantas.

Reviu amigos e primos (dele) alguns com mais entusiasmo do que a outra parte envolvida no cumprimento, conversou, sentiu-se acolhida, matou saudades, soube boas notícias- Vamos casar em julho! Ouviu outras que a deixou menos alegre: Eu e a Gi terminamos. Uma pena, queria tanto rever a Gi, prima postiça loira, de cidade pequena com todas aquelas coisas de caipira, gentil, afetiva, doce, frágil, delicada, mãe, louca. Uma amiga. Uma pena.

A casa estava linda, toda refeita dos buracos que ela deixou. Geladeira, móveis e quadros novos. Novos amigos, amigAs, que arranharam alguma sensação de território invadido, mas no parabéns, com amigos rodeando ele, ela soube que ele estava feliz. E isso a fez se sentir grata. Porque gratidão é alegria temperada com Deus.

O banheiro de dentro estava ocupado e ela foi lá fora, passou pela cozinha e reconheceu dois sentimentos que disputavam lugar. Era bom não ter que arrumar aquela bagunça. Era ruim não ter nada a ver com aquela bagunça, a bagunça que antes fora seu território, sua responsabilidade, sua caverna, seu corpo. Ali fora da cozinha viu primeiro o manjericão florido, enorme, como são as plantas “pragas” que crescem a revelia de cuidado e de sombra.

Mas ao lado da horta que o manjericão tomou todo pra si estava ela, uma plantinha que ela tinha plantado bebê, e que crescera para além dela. Devia ter dois palmos de altura quando plantada, estava com mais de 1 metro e 70.

Ele veio chegando com o primo e eles dividiram a surpresa divertida e quase orgulhosa desse crescimento. “O tamanho que ela ficou!”, “Sempre penso em você quando vejo o tamanho dela”.

E de novo sentimentos tristes e profundamente felizes deram as mãos dentro dela. E quando isso acontece dá trabalho. Confunde, cansa o sono. A alegria e a tristeza quando se fazem companheiras exigem bastante da gente.

Se aquela planta cresceu tanto, o que mais poderia ter crescido? O que cresceu? A certeza da semente vingada, o pesar pelos frutos que poderiam ter sido.

E ela resolveu escrever. Para que felicidade e tristeza pudessem dormir juntas, como deve ser.
(Á ele, que plantou tanto comigo.)
Por Mirabelle.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Tarde lilás


Era quinta feira, quase final do dia de trabalho. A cabeça andava na velocidade usual de dia-de-semana. Pensamentos em pistas de alta velocidade. Flashes intensos de todas as atividades a serem feitas, algumas das já riscadas da lista.
Me preparava para sair correndo como sempre, fazer xixi rápido, pegar tudo de uma vez, fazer agenda, chave e celular cair quando fecho a porta, afobada.
E de repente, não mais que de repente a música do Gil chegou, por baixo da porta e estranhei um sentimento novo, quase com cara de desconhecido. Mas era bom, muito bom.

Aqui dentro a água aplainou, os movimentos, pré-prontos para disparar foram desligados da tomada e percebi, bem dentro, que eu tinha todo o tempo, todo o tempo para fazer o que eu quisesse.

Reguei as plantas, arrumei revistas e saí devagar. No carro ouvi Miles Davis e o jazz acalmou o trânsito e o calor do fim da tarde.
Os planos da noite mudaram, mas não teve problema, ele demorou, mas esperei, fomos para outro lugar e comemos, de surpresa comida japonesa com o tempero especial da fome das 10horas da noite. Tomei banho devagar e fiquei mais limpa que antes. Camiseta e cheiro de sabonete, choveu.

E de repente, não mais que de repente descobri o nome do sentimento novo com a ajuda do Gil.

A paz
Invadiu o meu coração
De repente me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"

Que coisa é essa, a paz ser um sentimento assim, quase irreconhecido, quando chega sem avisar.
Por Mirabelle

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tempos


Droga! Eu fico tão feliz (e preocupada) quando pairo sorridente sobre as tarefas cotidianas mais banais, contente por ir na padaria, animadíssima quando encontro vaga para estacionar na terceira volta que fiz no quarteirão para ir ao banco, grata à uma força maior quando sento no sofá na hora da minha série favorita etc e tal.

Eis que as férias chegam, a gente sai da realidade de marmita, vai para um lugar novo, conversa com gente diferente e volta.

Desde quando o dia dia de qualquer mortal passou a ser a saga de uma secretária com uma chefe digna do Diabo veste Prada?

Porque se você tem coisas comuns de qualquer cidadão urbano como conta no banco, de celular, um cartão de crédito que pode ter pontos convertidos em milhagens, dois emails, uma conta no Facebook, umas 7 contas pra pagar (água, luz, condomínio, algum curso, prestação de alguma coisa) seu dia é uma jornada tripla: trabalho, casa e secretária executiva da sua própria vida.

Você tenta resolver a m... da NET que não está funcionando, por celular, nos seus 40 minutos de almoço, ao mesmo tempo em que estaciona o carro, pega um papelzinho de estacionamento que voa com o vento e fala:
“de 15 cm, peito de peru, não, atum, tomate, molho de mostarda com mel. O quê senhora? Não, não é com você! Tô falando com a moça do Subway. Ok senhora, desculpe a demora, vou pedir algumas informações por motivos de segurança. Quente, e uma coca light. Pode me passar o número do seu CPF? 223... Não temos light, pode ser zero? Senhora... seu CPF. Zero, pode ser...322 255 167. Como senhora? 14,90, cartão ou dinheiro? Eu já digitei meu CPF. Você não tem aí? Senhora, cartão ou dinheiro?”.

O incrível das férias são os tempos. Tempos largos, preguiçosos, frouxos, estendidos, não medidos. Pode-se sentar para ler e levantar 3 horas depois, ficar num bar 5 horas, conversar por 3:30h (tomando cerveja). A fome muda de lugar no dia, o sono se ajeita diferente aparecendo em lugar novo e deixando a noite quente para outras festas.

Esses tempos ilimitados são para mim como um doce que quanto mais se come mais fica gostoso. O impressionante é quão rápido o relógio acelera assim que se volta, como se as contas, os emails, os telefonemas, os dentistas e tudo o que não foi feito exigisse com ferocidade a imediatez de cada coisa e reconhecemos sem gosto a sensação de ir dormir com a conhecida impressão de deixar sempre mais do que a metade da lista por fazer.

A não ser que você seja um caso de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) grave para quem riscar itens de uma lista seja uma satisfação em si mesma, a pergunta: "pra quê tudo isso" se mantém uma incógnita.

O que vale a pena mesmo? Sem valer depois? O que vale na hora? Beijo. Falar outra língua (e isso inclui todas as lições de casa necessárias). Protetor solar até a noite. Chegar num lugar novo. Conversar com gente diferente. Conversar com amigo antigo. Vídeo engraçado do Youtube. Fazer um bolo e ficar lindo. Comer uma comida desconhecida. Barulho da latinha de cerva abrindo. Marquinha de biquini. Ler.
Mas se bem que pra ir para um lugar novo, conhecer gente diferente e conversar em outra língua, dar um beijo com protetor solar a noite, comendo maionese de wasabi, os pontos do Multiplus convertidos em milhas ajudam bem...

Por Mirabelle