terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Volta pra casa



Estou naquela que chamei de minha casa por mais de década e meia. As pessoas que moraram comigo continuam aqui e, como que instintivamente, quando penso em voltar pra casa, penso em chegar aqui. Algo em meu peito relaxa aliviado ao ser acolhido pelo barulho da chuva, os sons de terra molhada, o cheiro de jardim ao abrir amplas janelas. Uma minúscula aranha me observa no banheiro.

Mas esta já não é a minha casa. Meus dedos encontraram a pele daquele que é perfeita ao meu tato, o denso cabelo onde gostam de se perder, paragens ao redor da nuca que me invadem de aromas. Esse pedaço de matéria humana no espaço-tempo com quem troquei palavras em outra língua, receitas secretas, as obscenidades mais íntimas e ao redor de quem aprendi a orbitar descobrindo que é possível ser anã-marrom, estar no céu e no chão como estrela e planeta.

Minha casa é ao lado dele, onde ele estiver, e ele não está aqui. Faço do título deste texto um chamado – a ele, a mim mesma, a uma fuga: vem.

[Foto de Ana Lira. Título: Boa Vista. Muitas outras ainda mais lindas aqui: http://www.flickr.com/photos/ana_lira]

Darling Darling

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Minha única alternativa é ser alternativo


Relatório 2.0
Pesquisador:
XL500

Evento n. 2: “Festa alternativex”

Objetivo específico: aproximação e convivência espacial com gêneros sexuais diversos em um grupo específico: adultos (27 a 50 anos) que compartilham interesses e profissões culturais: bailarina/os, atores, clows, malabaristas, professores de teatro, dança, músicos.

Diário de observação em campo: continuo minhas pesquisas pela Terra e já me adianto ao evento científico de sábado a noite lançando mão de minhas mais recentes revisões de literatura sobre o vestuário feminino adequado: pretinho básico. Obtive informações de que esse traje pode ser adequado para as mais diversas situações. Vestidinho preto então para a festa de sábado.

Encontro o casal (heterossexual sendo este composto por uma espécie feminino a e um masculino) que me introduzirá no evento. No local: rua um tanto mal iluminada, muitos imóveis ao redor com placas de “aluga-se”, inclusive a casa onde é a festa. O casal informa: "eles estão mudando, a festa é de despedida, a casa está vazia".

O local, grande, sala sem móveis, música alta, poucos convidados. Na cozinha dispomos as bebidas trazidas pela pia e geladeira (a casa não está completamente vazia, se bem que a conta de água não deve ter sido paga, visto a descarga não funcionar).

De repente encontro um conhecido do planeta de onde venho. Estranhamento, o sujeito (em forma de espécie feminina) pergunta: “Quem você conhece aqui?”. Entendo o código, algo se assemelha aos filmes que estudei sobre a guerra fria, a sujeita me identificou como espiã e quis saber quem havia me introduzido no local. Respondida a pergunta, a sujeita apresenta-me sua namorada. Ok, talvez o evento n.2 não seja tão diferente do n.1 (relatada no post: “Quanto mais homem menos homem?” de 23 de novembro). Prosseguimos. Bebidas self-service em copos plásticos. “Com licença, posso pegar aquele copo ali?” Nenhum sorriso.

Hipótese 1: o pretinho básico não é básico por aqui. Parece que mais ninguém tem o básico no guarda-roupa. Salto alto então, nem pensar.

Percebo que errei no modelito e talvez essa seja a razão da cara de poucos-amigos que recebo.

OK, ninguém sorri, ninguém pergunta de onde venho ou se estou gostando da festa. Para não fazer pose de estátua e nem cansar as bochechas no sorriso de aproximação fracassado, danço.

Na pista de dança;
empenhei-me em minhas pesquisas tomando aulas de dança e revisando filmes para me integrar bem em um ambiente dançante (que faz parte da pesquisa), porém, percebo que talvez, assim como os trajes, meus movimentos não sejam os mais apropriados ao local.

Moças de cabelos cacheados curtos se balançam enroladas em tecidos coloridos, segundo minhas pesquisas, espécies de “cangas” ou “bandanas” maiores. Os movimentos dos dançantes assemelham-se às danças performadas em rituais de umbanda ou candomblé. Referências logo compreendidas quando sou informada, pelo casal-fonte, que muitos dos presentes pesquisam danças brasileiras na Unicamp.


Hipótese 2: os bailarinos “profissionais” (estudiosos das artes do corpo segundo as mais sofisticadas versões sócio-antropológicas da cultura brasileira) dançam feio.

Gênero: muitas mulheres, poucos homens (geneticamente falando), menos ainda em termos de escolha sexual. A espécie feminina do casal-fonte me informa um tanto alterada, que um homem (geneticamente falando) ali presente com a namorada teve um caso com seu vizinho, e que coitada não devia saber de nada.

Aqui a distinção entre os conhecidos tipos de escolha sexual: hetero, homo, bi, é dificultada pelos trajes semelhantes e por uma espécie de código de decoro (estudar antropologia serve para alguma coisa, mas não para aprender a dançar!) que é mais ou menos assim:

- as mulheres dançam poderosas
- poucos homens que sabem dançar integram-se com elas
- o restante dos homens recosta-se pelas paredes

Hipótese 3: os homens recostados pelas paredes seriam os heterossexuais protegendo a retaguarda ou homossexuais tímidos?

Avisto um espécie masculina, aparentemente gay, que dança animadamente com algumas mulheres. Eu que gostaria de aprender a dançar melhor em dupla digo com cara simpática: “Dança comigo?” Tentando mostrar da melhor maneira a empatia entre iguais, como se eu dissesse: “Amiga, somos iguais, vamos só nos divertir dançando.”
Resposta: Não.
O espécie masculina (em termos genéticos) sai rapidamente da pista. Reviso minhas teorias de aproximação social para ver onde há um erro tão grave a ponto de eu ter assustado o terráqueo. Seria apenas o fato de eu ser mulher? O pretinho básico? O cabelo liso (super out por aqui)?

Fim da noite;

único contato conquistado mediante aproximação contundente (“Oi, tudo bem? Como você chama? Quer ser meu amigo?”). Assunto: a produção cultural local é autêntica e fértil, no entanto não tem público para apreciá-la. Mas por outro lado é bom, porque vender arte sempre reduz a liberdade de criação então é melhor assim mesmo. Profissão do informante: biólogo, malabarista e trapezista.

Hipótese 4: a população em questão aprecia a posição social de des-privilégio financeiro mesmo.

Esperando na porta do banheiro;

antes de partir (experimentando um estado, até então apenas estudado teoricamente, de enxaqueca): chega um cara depois de mim, esperamos. Ele se senta no degrau em frente ao banheiro, nenhum contato visual. Abre-se a porta do banheiro, ele se levanta e entra. Eu tinha estudado que quem chega primeiro entra antes, e que essa regra poderia ser quebrada caso um espécie masculina quisesse, por gentileza, oferecer seu lugar à espécie feminina, não é assim no Titanic: mulheres e crianças na frente?

Conclusão parcial: pelo menos na balada gay te deixam passar na frente no banheiro! Mas nessa festa, a seleção musical: da trilha sonora de Pulp Fiction, passando por Tim Maia, Amy Winehouse e samba quase vale perder a vez no banheiro.

Por XL500

domingo, 6 de dezembro de 2009

Exaltação do outono: estrelando... O CARACOL (parte 1)



Enquanto alguns travam debates acirrados para definir se a cor de esmalte do verão é rosa chiclete ou a do sapato da Barbie, ou qual o modelito mais in do biquíni Bond Girl para exibir a silhueta na praia, em outras latitudes, como na minha, tem início todo um processo de exaltação do outono. As folhas ficam laranjas, os “boletaires” vão aos bosques coletar cogumelos (que são iguarias gastronômicas locais essenciais em qualquer quitanda e não uma espécie alucinógena exótica) e, no meio de todo esse panorama, uma estrela brilha em destaque na Catalunha: O CARACOL.

Sim, sim, pensem no bichinho deliciosamente ensopado como na vizinha França, essa coisa de le escargot que muita gente pensa ser chique não é apenas um mito (comer caracol é, na verdade, uma coisa de camponês). Mas é preciso explicar como – como? – a devoção por esse personagem tem início, algo que é transmitido às criancinhas ainda em idade muy tenra. Eu, como mãe estrangeira e observadora, me empenho em aprender as tradições locais, mas a coisa custa um pouco.

Depois de ouvir o Júnior cantar infinitas vezes, em catalão, o refrão de domínio público “Cargol treu banya, puja la muntanya...” (Caracol, mostra as anteninhas, sobe a montanha etc. e tal), eis que numa bela sexta-feira chega uma nota da escola: “Queridos pais, vamos começar a estudar os caracóis e montar um viveiro. Se vocês puderem ir ao parque com seus filhos neste fim de semana e trazer algum caracol vivo, agradecemos”.

VIVO? Hmmm. Ainda bem que o Júnior tem pai, um homem valente e viril que não tem nojo de bichinhos invertebrados e asquerosos. Domingão de sol, lá vão o Júnior, o pai e a Zilminha ao parque, cansar os moleques para a gente ter um pouco de paz à tarde e também caçar os tais caracóis. Depois de muito investigar o terreno (literalmente), voltam os três com uma das forminhas de areia repleta de caracóis (que são enormes para os padrões tupiniquins). Mas só um deles, o menorzinho, tinha lesma. O Júnior estava exaltante, já o Asdrúbal abriu uma cerveja. Me limitei a estacionar o copinho ao lado da janela da cozinha, sem encostar nas conchas (eca), e vou tocar a vida.

À noite, as crianças já dormindo, chega aquele momento de magia e exaustão de preparar a mochila para a escola no dia seguinte. Tenho que preparar também o caracol, encontrar um potinho onde o bicho possa dormir vivo e ser levado para que os pequenos cientistas montem seu experimento. Reviro os tupperwares da vida e concluo que o melhor seria um copinho de vidro de iogurte, pois temos vários e um a menos não vai fazer falat. Lá vou eu procurar o caracol na forminha de areia que deixei do lado da janela e... cadê o desgraçado? Já estava escalando a parede, em plena fuga. Quase perco o futuro científico do Júnior. Pior: tive que encostar na concha e observar como a lesma se despregava da parede com um "ploc" para encestá-la no copinho – aaaaargh, que nooooooooojo!!!

Cubro o copinho com Magipack, furo o plástico com um palito de dentes, preocupada com a respirabilidade da microcâmara até o dia seguinte e voilà, buenas noches, cargolet, até amanhã.

continua...

by Womber Woman

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Julie & Julia


Chove. Me sirvo de outra taça de vinho, hoje fui comprar e sempre que posso, tento encostar no sommelier para ver se aprendo algo novo, hoje aprendi: untuoso. O quê? Não sei o que é isso. É amanteigado. Untuoso de untar? Que nem unta fôrma de bolo, com manteiga? É. Ah!

A chuva acalma um dia quente com uma lista de 16 coisas para fazer. Um vizinho toca a campainha para devolver o prato no qual estavam os pedaços de bolo que ofereci ontem.

Um amigo da faculdade disse que um clichê é lindo quando é verdade. Por exemplo: Você é a manteiga do meu pão. Quem já viu identificou a frase: Julie & Julia.

É clichê escrever em um blog sobre um filme que fala de uma Julia que escreve em um blog. Mas é de verdade, então... Como foi lindo ver o filme usando colar de pérolas, sem saber antes do colar de pérolas das personagens. Dá uma sensaçãozinha de perda de direitos autorais quando a gente vê exatamente aquilo que queria dizer, ao mesmo tempo em que o coração se sente posto no colo.

Há dias venho pensando em uma coisa: na pressa. Em como a falta de tempo está na moda. Quanto pega bem falar que a agenda está cheia e quanto dá até vergonha falar no celular: "Não estou ocupada, posso falar". Ou: "Obrigada pelo convite, vou sim!"

Uma segunda-feira qualquer. 18:40h. Chego para pegar o carro que tinha deixado para lavar. Moça sentada em um banco do estacionamento/lava-rápido olhando para o chão. Me vê e: "Nossa que correria né? Tá uma correria, o ano já tá acabando!" Que boneco atual esse, pensei. Fica em stand by, quando alguém bate palma ele fala a frase gravada: correria...

Penso se a moça do lava-rápido seria muito diferente de todas as pessoas que ouço repetirem essa exata frase. Seriam minhas amigas tão mais ocupadas que a moça blade-runner?

No filme a Julia almoça com três amigas e cada uma fala no celular, uma delas “cordialmente” tenta agendar algo com Julia, saca seu sei-lá-o-quê eletrônico onde moram seus infinitos compromissos e diz que sua agenda está lotada. Talvez um café da manhã?

Jantar, nem pensar (prime-time, que nem na Warner) almoço também não, você não é tão relevante assim, já sei: café da manhã. Aquela refeição rápida que você tem que fazer mesmo, porque não aproveitar e encaixar 10 minutos de uma desimportante pessoa?
E eu até fiz um bolo para um desses breakfast dates (a palavra em inglês já diz: rápido).
Sou tão démodé.

Não é toa que o filme fala, se passa e traz a comida francesa à mesa. Os tempos indefinidos passados nos cafés, as refeições de 7 pratos, as receitas de um dia inteiro.

A minha Julie é a Heloisa Bacellar, estudou também na Cordon Bleu e escreveu dois livros (2 que eu conheço) lindos lindos com receitas que dão sempre certo, fotos de crianças, panelas e toalhas vermelhas.

A Heloisa me ensinou que não precisa ter louça combinando para convidar pessoas para jantar, que se pode fazer arranjo de flor do jardim e que é importante pensar se os convidados têm coisas em comum a conversar. Há pouco tempo me perguntaram: "Quanto tempo demorou para fazer tudo isso?/ O dia inteiro", respondi.

Nilton Bonder, um rabino que está escrevendo coisas interessantes, disse que pode ser que a mulher moderna volte para a cozinha. Cozinha não como escravidão e submissão, mas como outra relação com o tempo, com o servir e com o outro.

Sei que as orelhas se arrepiam ao falar em mulher na cozinha, mas não falo aqui na mulher viniciana (de Moraes, com suas 9 esposas), feita apenas para amar, para chorar/sofrer (não sei, os dois talvez) pelo seu amor e para ser só perdão- samba da bênção.

Mas das mulheres, e homens, que podem usar seu tempo para preparar algo para o outro. O que dá uma satisfação individual incrível, não tem nada a ver com santidade ou anulação, mas com aquela recusa, da qual nos fala tão docemente Lenine:

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Cozinhar demora. Cozinhar é valsa. Se um pão tem que esperar uma hora para crescer para depois ser sovado novamente e esperar mais 2 horas... nada acelera isso.

Quando penso na cozinha francesa e nas típicas dietas de revistas brasileiras me pergunto: como as francesas são magras e as brasileiras não? Os nutricionistas estariam errados nas contagens calóricas? Porque o que o filme mostra é verdade, você nunca vai comprar e usar tanta manteiga na sua vida quanto quando você cozinha receitas francesas.

Talvez o que a revista NOVA e a Woman´s Health não considerem é que a comida é mais que caloria, é alimento. E nada alimenta menos que barrinha de cereal e sanduíche light (daqueles embrulhados em plástico).

Sentir-se bem alimentada emagrece, porque não precisa comer mais.
Acho que por hoje, com o filme e o vinho, posso dizer (como se diz polidamente à mesa): estou satisfeita.
Por Mirabelle
Heloisa Bacellar: Cozinhando para amigos é o vol.1, o vol.2 se chama: Entre panelas e tigelas, é ainda mais bonito, mas prefiro a distribuição do primeiro, que é: dias quentes, na frente da TV, reveillon na praia etc, no vol.2 as receitas são separadas por situações como: festa junina, ovos, arroz e feijão.
O melhor mesmo é ter os 2. Já dei de presente em alguns casamentos, tenho considerado o presente mais delicioso de dar e receber. Editora DBA, fotos de Romulo Fialdini.
Nilton Bonder: o livro dele, A alma imoral, ed. Rocco, está entre os meus preferidos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Estou.


O vento me contorna,
reflito a luz numa parte lisa
guardo uma sombra n´outra curva
e faço calor.


Quero adormecer dentro
e acordar sem vazar.
Até que lugar é eu,
onde te começa?


Preciso caber só (e toda) nesse espaço
entre detrás do osso e o arrepio
um pouco além da pele
lá fora, já sua,
onde ainda eu assobio.


Por Pommelle

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vontade-de-Jornal-Nacional


Não tenho tv a cabo (medida atual de nova fase da vida) e nem liguei a tv nova na antena do prédio, resultado: só dvd. Sou daquelas chatas que gostam de filme iraniano (juro que gosto, vi um em Barcelona que mais parecia uma poesia, “5 de la tarde”), peguei uma encomenda na Cultura hoje de um filme da B.B. (Brigitte Bardot). Sou daquelas chatas que não sossegam até ter visto essas coisas clássicas das quais a gente sempre ouve falar, mas nunca viu, por exemplo: Breakfast at Tiffany´s (traduzido por Bonequinha de Luxo), que tem aquela foto da Audrey Hepburn com uma piteira. Dos clássicos aos atuais, vejo e revejo as temporadas (aleatoriamente) do Sex and the City, mas hoje, surpreendentemente numa quinta-feira, veio aquela vontade conhecida de Jornal Nacional.


Vontade-de-jornal-nacional é mais que uma vontade, são várias vontades unidas sob a égide do Bonner e da Fátima. É vontade de noite normal, comum. Sabem aquele sentimento de mediocridade confortadora de ser mais um entre tantos milhões a ouvir o “boa noite” do William Bonner?
Poderia ser uma vontade-de-novela, mas essa é mais perigosa porque continua no outro dia, e normalmente é legal e você vai querer ver de novo, jornal nacional dá uma overdose de mães chorando por um filho que sumiu há 17 anos que você não tem vontade de ver de novo pelos próximos 7 meses.
Faz parte dessa vontade o desejo por qualquer comida da infância: coxinha de frango no forno, macarrão de gravatinha, arroz com ovo e tomate picado, farofa. Sei que a vontade-de-jornal-nacional é um alerta de colo, mas vamos deixar as interpretações acerca da angústia para o chato do analista (coitado, ele nem é chato, a minha voz interna que é).


É vontade de noite devagar, sem música, nem cerveja, nem prosecco, nem mensagem no celular. Junto dessa vontade vem vontade de que tudo esteja pronto e funcionando sem que você tenha que fazer nada, como quando a gente chega pra sentar à mesa quando criança e está tudo lá.


Vontade de não ter nada a ver com fazer as coisas funcionarem, ou acontecerem.


Naquele texto clichezíssimo e fofo do “Wear sunscreen” (vale a pena, vai lá no Google!), ele fala que nostalgia é reciclar as coisas por um valor maior do que de fato valeram. Pode ser. Mas que é demais de reconfortante ouvir o William, da TV do vizinho, e sentir que se o jornal nacional continua lá, falando que o Maluf (agora vai!) pode ser incriminado por ter acobertado o desaparecimento de presos políticos na ditadura (oh, jura?), se tudo continua igual, é porque existe consistência no mundo, uniformidade, mesmice. E nesses dias o igual é delicioso, e mais: necessário.


A vontade-de-jornal-nacional me visita em média duas vezes ao ano. Nos outros 363 dias a uniformidade e o mesmo (não o do elevador, o da mesmice mesmo) me apavoram (ou tem algo mais aterrorizante que o Faustão domingo?). Mas tem dia que me apavora mais a sensação volátil de suflê. Da vida suflê, inchada por fora, e com queijo derretido dentro, nada de persistente, de eterno (jornal nacional é eterno).


Viajar- como disse um querido viajador (que aliás está viajando hoje)- destampa a cabeça. O dia-dia faz a nossa cabeça de marmita mesmo, mas já tive a sensação, viajando, de destampar tanto que quase saí flutuando que nem bexiga de gás. Já sentiram, bem dentro da pele, que tanto faz o seu trabalho, a cidade onde você mora, ou qualquer outra escolha que, no momento marmita-tampada parece indiscutível e eterna?


É nesses dias em que a vertigem de todas as possibilidades se avoluma dentro da gente que a musiquinha do JN nos traz pelo pé àquela realidade que parece de verdade (que muita gente acredita) mas a gente sabe que não é nada disso.

A gente sabe que o Maluf não vai ser preso (ou não vai permanecer preso), que o jogador do Palmeiras vai dizer que a concentração é importante porque o jogo contra o Atlético vai ser difícil e todas essas realidades-de-marmita.


Mas que delícia que é marmita, de vez em quando, com o feijão misturado na farofa e um ovo em cima, e couve então? Com jornal nacional, combinação perfeita! Porque nem só de filme iraniano e confit de pato vive uma pessoa.

Por Mirabelle misturada com Cocobelle

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quanto mais homem menos homem?



(Relatório 1.0 expedição Terra)


Grande área: antropologia cultural inter-planetária.
Local: Terra.
Era cultural: Pós-modernidade.
Foco de pesquisa: vestuário, moradia, comunicação grupal, relacionamento sexual dos habitantes locais.
Metodologia: 1. Participação como sujeito do evento em observação (Levi-Srauss). 2. Revisão sistemática da literatura terrestre dos campos: sociologia, antropologia, mitologia, psicanálise, religião e filosofia. 3. Questionário informal aplicado aos habitantes locais.


Pesquisador XL500 (não é nome de caminhonete nem de arma): sujeito em forma de habitante do sexo feminino (o que se refere ao corpo biológico como nasceu), solteira (referente ao estado civil, o que implica em sujeito não casado com outro de sexo oposto, ou do mesmo sexo, como o código jurídico de alguns países consideram), na faixa dos 20 aos 30 anos (contados em anos solares).


Evento n. 1: “Balada GLS”- festa, evento que costuma acontecer a noite (referente à transação da Terra em seu próprio eixo). G: gay. L: lésbica. S: simpatizante.
Objetivo específico: aproximação e convivência espacial com gêneros sexuais distintos com intuito de estabelecer parâmetros e concluir tipologias no que se refere a vestuário, comunicação e relacionamento.
Objetivo geral: incluir grande dossiê sobre a sexualidade e gênero interplanetário.

Diário de observação em campo: com o espírito dos antropólogos franceses que habitaram aldeias indígenas, dirijo-me ao local sábado a noite, 24 graus. Cidade de 14 milhões de habitantes, meio do feriado. Informam-me que tudo está vazio porque todo mundo foi a praia (anotado: terrestres vão à praia no feriado). Espécie feminina que me acompanha oferece dado curioso:


“Com esse carrão a gente vai fazer sucesso, homem adora esse tipo de carro, meio tanquinho de guerra, é tipo o brinquedo que eles adoravam quando crianças, só que de gente grande!”


Outro dado relevante: “Essa balada é gay, fui uma vez, é meio pesado, aqueles caras se pegando, não sei não!” - fala da fonte feminina.
Chegando: não há reação quanto ao veículo com o qual nos transportamos.

Hipótese 1: gay não liga pra carro.


Recentemente em minhas pesquisas ouvi, em tom jocoso, que: “Mulher gosta de dinheiro, quem gosta de homem é gay”. So far, a realidade oferece lastro para tal compreensão.
Na fila: GLS? Gays homens muitos (é o que parece pelos estudos que fiz). Lésbicas? Não. Simpatizantes? Não é possível saber. Penso em alguma espécie de placa, tiara com luz piscante ou cor de camiseta que identifique tão importantes decisões individuais, mas logo considero que a sugestão poderia não ser bem aceita. Entro.
A segurança revista-me duas vezes, uma antes de ver a bolsa, outra depois. Seria ela a primeira lésbica que identifico na balada? Questionamento pendente.
Lá dentro. Lugar agradável, com espaço aberto, duas pistas, bares distribuídos. 90% de terrestres organicamente masculinos. Esse, pelo que percebo, é o único dado passível de apreensão imediata (alertaram-me para o fato dessa observação ser possível tão somente não haja a presença de travestis). A categoria de gênero e escolha de parceiro sexual são áreas que começo a desconfiar serem bem mais complexas do que a literatura é capaz de apreender.


Em minhas pesquisas identifiquei algumas características marcadamente femininas: trejeitos, delicadeza, voz mais fina, movimentos suaves. Alguns terrestres masculinos (organicamente) apresentam tais características, o que facilita a identificação por uma opção homossexual: gostam da mesma coisa que uma mulher (em se tratando de escolha de parceiro). No entanto, em campo (balada GLS), uma informação factual conflita com meu arcabouço teórico.


Homens, como definido por diversos autores e pela maneira com que são ilustrados pela cultura em mitos, romances, poemas, novelas etc, são indivíduos com força física superior à espécie feminina. Tendo, portanto, desenvolvido ao longo da história, trabalhos fisicamente mais desgastantes e utilizado, inclusive, tal diferença física como parte do jogo de sedução e acasalamento com seus pares de sexo oposto para fins de perpetuação da espécie humana. Os “homens” (no sentido orgânico) dessa balada são os mais fortes que já vi desde que cheguei à Terra. A noite é um mar de músculos e barrigas definidas, auxiliadas por algum tipo de produto que reflete a luz: dançarinos de bermuda e botas bezuntados de óleo.

Segundo a literatura clássica ali estariam os Hércules pós-modernos. Pelo que estudei os gregos adorariam a pós modernidade!


Questionamento teórico paradoxal: quanto mais homem menos homem?

Sendo o primeiro no sentido físico e o segundo no de escolha sexual.

Diante da cena repetida de músculos e barrigas (não sei se o uniforme era calça jeans, tatuagem e mais nada, ou se era apenas a ditadura da moda) a mostra da espécie feminina (amiga) conclui: "Se eu fosse homem eu seria gay, olha que lindo!"
À medida que o álcool age no entorpecimento do SNC (sistema nervoso central- esse é outro assunto que merece pesquisa aprofundada) o que era esquisito passa a ser visto como lindo.


Tendo chegado um momento, já perto de amanhecer, em que uma espécie feminina um tanto acabrunhada de início passa a mão carinhosamente em duas carecas (faria parte do uniforme também?) de um casal de caras enormes “se pegando” (como se diz por aqui) e exclama: “Que liiiiiindo!”
(to be continued! )


Por XL500