domingo, 17 de julho de 2011

Etiqueta modernets

Hoje em dia quando você conhece alguém, acabou o romantismo, as flores, o mistério, a expectativa do universo aguardar se vocês vão se encontrar de novo, se um amigo tem o contato dela e tal, a pessoa nem pergunta mais o telefone, os mais rápidos e modenets te adicionam na hora ali na sua cara via Iphone no Facebook, ai da sua foto estar uma droga ou que merda é essa configuração que o nosso querido Zuckerberg inventou de aparecer bem ali na frente as fotos nas quais você foi marcado??????? E se a foto estiver horrível?


Minha tia colocou lá no álbum dela uma foto na qual me marcou em que estou em minhas 7 ou 8 primaveras (parafraseando meu avô) nos requintados anos 80, década em que a moda era, não sei se por pura maldade dos estilistas gays da época, não sei se por eu morar em Campinas city: o corte de cabelo Chitãozinho...

Aí você conhece o seu futuro pretendente a jogar o cabelo e fazer beicinho e na hora, sem você poder se defender nem nada, ele já vê você com o seu irmão, prima, tio e tal todos exibindo o corte do momento: eis que o momento é 1989.

Se as intenções forem mais sérias e o sujeito quiser um contato via voice... porque FALAR VIA VOZ com um ser humano se tornou o contato mais íntimo que se possa imaginar do momento. O indivíduo te manda uma mensagem (desculpem, me recuso a falar torpedo, acho esse termo cafona), exatos 1 segundos se passm e você liga/telefona/disca (haha) para o número... eis que a pessoa não atende.



Você pensa, ela está ocupada, tipo “em uma reunião”!! Acho chique as pessoas que estão em reunião, e aquelas que atendem e falam baixo: eu tô numa reuniãozinha, posso te ligar depois? (a-do-ro imaginar essas pessoas atendendo embaixo da mesa). Essas são as que gostam de se fazer de importante. O + incrível é que tenho uma amiga cirurgiã que sempre atende, outro amigo juiz que também sempre atende e um amigo vendedor que sempre "está em reunião"...


Mas continuando a cena mais comum do século estranho em que nos encontramos, você pensa que a pessoa não pode FALAR, por isso ela ESCREVE. Logo em seguida à sua chamada, o indivíduo "text you" novamente, “falando” (os termos precisam ser revistos pelo Aurélio) qualquer coisa, aí você compreende (se é que isso dá pra entender) que a pessoa prefere não falar. Aí você, que é um ser que nasceu no século retrasado, entende que FALAR se tornou algo assim muito carnal, muito próximo, muito íntimo. Ah a voz, a melodia, o som...

Outra pergunta importante quando se chegou à intimidade de se perguntar o número do celular. Atenção o telefone de casa é proibido, só as mães e as avós têm telefone em casa, se alguém perguntar é porque o cara deve: 1- ou querer casar com você ou 2- ter um amigo na prisão, pode chamar a polícia porque a pessoa pode estar tramando ligar para simular um seqüestro, cuidado!

Ok, sua relação chegou ao ponto da intimidade da relação vocal. Parabéns o sujeito tem sérias pretensões com você (ou um amigo preso). Pergunte sem medo se o celular da pessoa é TIM e anote na sua agenda do celular, porque gente, vamos combinar que não dá mais pra ligar pra celular que não é da TIM né? E atenção, isso não é questão de muquiranagem ou falta de dinheiro na sua conta bancária, é uma questão de protesto do cliente, não vamos mais telefonar para pessoas que tem Vivo, Claro, pessoas que tem TIM ganham uma estrelinha na sua agenda e podem ser chamadas a qualquer hora do dia, da noite (hummm) e de qualquer lugar do Brasil. Essa é outra estranheza da sociedade atual, mas tem que ser atualizada na sua lista de etiqueta de interação social.

Repassando:
Não pega bem adicionar a pessoa assim na frente dela, anota o nome e adiciona depois, vai que a foto tá feia, um pouco de elegância né gente!

Não tem problema perguntar se o celular da pessoa é TIM e não, não é porque você não tem dinheiro, é porque os preços das operadoras são abusivos!

Etiqueta em tempos modernos!!

Joga o echarpe via SMS ;)

Por Cocobelle

terça-feira, 12 de julho de 2011

It is still so fun

Eu sou aquela que acordou a cada pequeno choro ou suspiro contido por noites a fio sempre que eles precisaram. Sou aquela que emprestou o corpo para gerar vida e alimentá-la, exausta ou insone, os bíceps tarimbados por sempre ter estado ali quando os pequenos braços se estendiam a mim.

Também sou aquela que postergou projetos por não existir projeto maior que um ser humano menor que você capaz de proporcionar tamanha ilusão de posse: meu filho, minha filha. Tão incoerente que você se dedica a ensinar-lhes, inexaurível, a fazer o que querem, e não o que você manda.

Eu sou tudo isso. Mas sou também aquela que aprende a gritos internos – com a generosidade e disponibilidade do parceiro – a ser egoísta o suficiente para afastar-me por três horas de voo e sete dias até viver outra vida talvez menos desejada, mas não menos merecida.

Eu fui aquela que o encanto dos DJs obrigou a dançar na areia diante do azul mediterrâneo, sereia serena, até o sol se por ou raiar, cinco anos mais jovem segundo os olhares alheios que, como eu, podem não me imaginar ali. Mas fui e cumpri e fiquei morena para mergulhar até as profundezas de meus mares mais cristalinos, permitir-me aproveitar a condição de mulher brasileira bela e jovem e tão exotiquinha numa ilha exclusiva como self-gentileza por tudo o que custou chegar ali. Que pouco espaço existe entre ser turista e imigrante.

Também encantei e bebi grátis na piscina com vista cinematográfica, entrei como convidada nos templos da música eletrônica sentindo-me sagrada, até emprestar as costas sob céu estrelado para quatro mãos macedônias estudarem massagens recém-aprendidas eu emprestei. Merecidamente.

Sou tudo isso, sim. Queria ter sido todas as mulheres do mundo para que elas pudessem ser um pouco de mim. Como gesto de gratidão por toda a inveja que já tive daquelas que não eram eu algum dia, essa coisa tão feminina. Parodiando uma leitora, eu digo: “eu tenho dó de quem não é a gente”.

Volto mais plena, não com menos saudades dos meus. Que o mundo abrace minha pele morena, não tenho medo, quem irá devorá-lo sou eu.


Para Mirabelle, Cri e Asdrúbal, que fizeram esta aventura possível.

Womber Woman, Mykonos, verão europeu de 2011.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Calda-de-Chocolate-IV (Intravenosa)



Sabe aquele mau humor que escurece o dia as 4 da tarde e que você considera a hipótese de uma nova carreira à la Amy Winehouse no quesito abuso de entorpecentes já que essa seria a única solução para que você descansasse de si mesma pelo menos por algumas horas?



Mau humor não é um sentimento que mereça ser levado a sério, por isso nunca achei muito digno de nota as famosas TPMs femininas, os bicos, os descontroles. Cresci com minha mãe dizendo aquelas frases de culpa que te tiram a licença poética do xilique. Quando não se queria comer alguma coisa, ouvia-se que tem criança que passa fome, quando a gente fazia cara feia ouvia um discurso meio católico misturado com algo de luta de classes que pretendia criar um sentimento de gratidão com pitadas de culpa por pertencer a uma classe exploradora e beneficiada. Enfim, aprendi que mau-humor era coisa de criança mimada e TPM coisa de moça mau-criada.



Mas eis que o mau-humor, esse mesmo, safado, que não se pretende valoroso e importante te pega pela orelha, pelo ombro, faz o sapato ficar saindo do pé o dia inteiro, e dá vontade de xingar a mãe da moça da Claro que te liga pelo quinto dia seguido, aliás quando toca seu celular dá vontade de jogar na privada e esse mau-humor cretino, raivoso, espumante te dá um brevê de raiva, como se você ganhasse o direito divino de ser intragável... o problema é que você se torna intragável também para si mesmo e a solução legal acessível mais próxima (se a idéia de seguir os passos da Amy forem te dar muito trabalho) é uma lojinha de posto com barras de chocolate.



Mas tem dia que o chocolate (não importa a quantidade) V.O. (Via Oral) não é suficiente, sua taxa de MH (Mau-Humor) está subindo rápido demais, você pode entrar em choque, arremessar o celular pela janela, atropelar o flanelinha no semáforo, cortar a garganta do porteito com o alicate que tem na sua bolsa, falar para aquela amiga querida que adora se gabar que ela estava gorda no vestido de noiva. Rápido, essa é a hora da Calda-de-Chocolate-Intravenosa. Pronto. A administração IV é rápida, eficaz e segura, te manterá capaz de continuar respondendo ao eletricista como um ser humano civilizado:



“Não, eu não sei se o conduite passa por aí, eu nem sei o que é conduite.”
“Não, eu não quero retomar o meu plano com a Claro, não, nem pela metade nem pelo um décimo do preço, obrigada.”
“Não precisa lavar o vidro do carro não, não, não, não! Obrigada, não.”



Ah o mal-estar da civilização... já dizia o senhor Freud, o que seria da civilização sem drinks e chocolate?


Por Mirabelle
Foto de Maria Elena em Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen), personagem de Penelope Cruz, uma mulher enlouquecida como todas nós ficamos de vez em quando.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Pé de cachimbo



Hoje é domingo pé de cachimbo
O cachimbo é de ouro bate no touro
O touro é valente
Bate na gente
A gente é fraco cai no buraco
O buraco é fundo
Acabou-se o mundo

Não sei se é esse belo versinho que meu avô recitava que amaldiçoou para sempre meus domingos ou se foram os domingos mesmos que inspiraram os versos, mas sejam uns inspiradores dos outros ou vice-versa, eles tem muito em comum.
A sensação apocalíptica, o fundo, o fim.
E não é por causa do Fantástico ou do Faustão, aboli esses requintados programas televisivos há mais de dez anos, ingênua eu, pensando que o problema era sanfonado como o Fauto Silva ou como as singelas notícias do fim do dia que a Globo delicadamente oferta ao país: merenda escolar apodrecida, velhinhos espancados em asilos... foge à minha compreensão o motivo pelo qual as pessoas assistem, mas não vamos entrar no mérito do masoquismo popular.

A questão dominical há muito me aflige porque não é pelos motivos que ouço falar que as pessoas dizem não gostar do domingo. Não é porque está chegando a segunda. Adoro a segunda, quando a segunda chega minha cabeça volta a funcionar, tudo aquilo que eu não conseguia pensar no domingo volta a fazer parte natural da minha agenda mental, também não é porque “não tem nada pra fazer”. Tem coisa melhor do que “não ter nada pra fazer” quando se está de férias?
E porque então que domingo parece ser composto de minutos moles que escorrem de um relógio de mingau sem gosto do Salvador Dali?
Tem algo melhor do que um dia no meio da semana no qual por um motivo qualquer a gente tem uma folga? Lembra quando a gente acordava para ir à aula e... não ía? Lembra a sensação de voltar pra cama? Lembro do quentinho do cobertor no sol da manhã, de tomar café mais tarde e ver aquela claridade amarela fora da sala de aula.
Um dia desses, tirei um dia do trabalho para arrumar a casa porque tinha acabado de me mudar, em um dia no qual não se trabalha a gente lava a louça, faz uma comidinha nova, coloca uma gaveta em ordem, leva uma roupa na costureira, assiste algo na TV, paga uma conta, manda um email, lê algo nem um blog, faz a unha, põe um creme no cabelo e liga pra sua avó... enfim, nada que te faça ganhar o prêmio Nobel, mas um dia bom, imensamente bom, que dá aquela sensação de pequenos deveres bem cumpridos.
Porque que no domingo você acorda com 14, 15 promissoras horas pela frente e não faz NADA?????
NADA???
Eu sento na frente do computador e pulo do Facebook, para um email e outro e não consigo lembrar de uma conta que eu tenho que pagar ou um Blog que eu queira ler e é só chegar segunda-feira que eles pulam na minha cabeça que nem um amigo no MSN falando “OI”.
PORQUE QUE EU NÃO LEMBREI NO DOMINGO?
Porque eu lembro do texto que eu queria ler, da conta pra pagar na segunda, quando eu tenho 30 minutos pra almoçar e chego em casa 21:30h da noite?
Será que no domingo o sistema cai?
Sei lá qual sistema, o Google do mundo?




Por Mirabelle

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Supernanny Me

A- DO-RO esse programa, apesar de no geral eu achar ideologicamente triste a idéia de mudar o comportamento de maneira ortopédica. Me arrepia só de passar na seção de auto-ajuda com todas as dicas de emagrecimento, sucesso e felicidade instantâneas. Como se abraçar uma árvore e chamar as pessoas pelo nome fosse capaz de fazer de você um líder conectado à natureza.
Se essas coisas funcionassem não haveria neguinho infeliz, desempregado ou gordo, mas infelizmente para os psicólogos do comportamento, somos bem mais que ratos mal treinados.
Mas Supernanny eu gosto! Não sei se é porque é incrível ver crianças tão mal-educadas ou se é bom demais ver qualquer transformação, mesmo daquelas mais toscas nas quais a menina estranha tira os óculos e solta o cabelo e se torna a + pop da escola.
Então, por mais que eu desacredite em mudanças impostas externamente supernanny parece funcionar, não parece? Ela não é nenhuma psicanalista do comportamento infantil ou parental, mas dá umas dicas interessantes e acho que o + importante, restringe comportamentos inaceitáveis, no caso das crianças: morder o irmão, xingar a mãe, não comer...
Aí pensei uma coisa.... e se eu SUPERNANNY ME?
E se eu me impusesse ortopédica e externamente proibições à comportamentos que não quero mais?
O que aconteceria comigo?
Eu me sentiria mais feliz e satisfeito, como as crianças da supernanny, que beijam ela no final, ou desenvolveria um pré-câncer no final da semana?
Pensei em fazer um quadrinho de cartolina na cozinha com as minhas metas e estrelinhas no fim de cada dia (será que funciona a gente se auto-reforçar?).
E se tivéssemos uma supernanny nos proibindo de criticar? De reclamar? De cobrar os outros? De trazer assuntos difíceis à conversa? De ficar mau humorada e chata?
Como ficariam nossas relações?
Se só por uma semana nós fizéssemos a escolha artificial e até certo ponto falsa de sermos LEGAIS, em especial com aquela pessoa mais próxima, aquela quem a gente atormenta com mais dedicação e talento?
E se aquelas atitudes mais irritantes e que trazem mais desentendimento nos nossos relacionamentos forem tão só birras infantis das quais não conseguimos nos livrar, mas que nos fazem muito mal? Como dormir na cama dos pais, brigar com o irmão e não comer?
E se, além das motivações inconscientes que nos levam a reagir de determinada maneira, nós formos adultos mimados?

Por Mirabelle

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Mãe




Já passou, tudo quanto é coisa faz propaganda do dia das mães, mas fazer o que? Nem sempre se é original e um assunto que dá o que falar é esse: MÃE.

O shopping do dias das mãe vem com todas aquelas imagens de carinho e devoção das mães com seus filhos, são imagens bonitas, mas senti vontade de falar do “negativo” da maternidade, não no sentido moral de ruim, mas o oposto do positivo que é coisa que se faz e mostra. O negativo, aquilo que não se faz, aquilo que não se diz, o que se guarda.

Se eu pudesse escolher uma característica de maternidade singular, fundamental e sutil seria essa capacidade de não dizer.
Como nos envergonharíamos se nossas mães nos contássemos tudo o que elas vem da gente. Porque muita coisa a mãe enxerga antes, bem antes de acontecer. Não porque mãe é mágica ou leu “O Segredo”, mas porque mãe conhece o filho de dentro e desde sempre.
Não são todas as mães que tem esse talento do não dizer. Aliás, mãe quando dá pra ser ruim é uma desgraça na vida de uma pessoa.

Mas senti vontade de falar da minha mãe, e das mães que tem esse dom sutil e delicado de olhar, saber e não dizer.

Como sou grata por tudo o que a minha mãe ficou em silêncio e pôde guardar para outra hora, como a mãe cuida quando pode conter em si uma opinião, uma sugestão e deixar a gente ser para então, em outro momento conversar e mostrar. Ou não.
Por isso que casa de mãe tem que ter armário grande. Um amigo arquiteto construiu no quintal da casa dos pais um galpão cheio de prateleiras... uma cara de pau sem tamanho para guardar tudo o que ele e o irmão não queriam mais.
Por que tem muita coisa que a gente não quer mais e acha que não quer mais pra sempre, mas se se tem uma mãe assim, no negativo, uma mãe baú, armário, a mãe guarda e depois a gente pode se reencontrar quando ela diz como quem não quer nada:
- Filho, olha isso aqui, você lembra?
E aquele quadrinho, urso, camiseta faz você ficar mais inteiro.
A mãe no negativo é aquela que não fala pra você ficar quando está difícil de ir embora. Porque mãe muito boazinha, daquelas que insiste que você fique e faz comida e te cobre no sofá, não ajuda a crescer.
E tenho aqui uma desconfiança que essa mãe sutil, que tem uma sabedoria antiga e natural já ficou bem triste em vezes que ela sentiu que estava difícil para você ir (para a sua casa, cidade), mas ficou quietinha, guardou a vontade de falar: “Filho, fica, eu cuido de você!” Porque ela sabe que você precisa crescer, e ficar em silêncio nessa hora te fortalece a ir.
Á essa mãe que vê, mas não diz. Á mãe que olha e deixa ir. Á mãe onde se pode guardar e voltar pra buscar, quadrinhos, lembranças, abraços.
Minha mais imensa gratidão.
Por Mirabelle

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O homem "a nível de" frigobar no banheiro





“Que época mais interessante essa em que vivemos. E por isso mesmo tão complicada. De uma hora para outra a organização familiar que tinha controlado a vida privada e pública das pessoas foi totalmente transformada. Não que o patriarcado fosse a coisa mais legal do mundo, longe disso, mais dentro dele as pessoas sabiam se mover, havia uma experiência ancestral que ensinava, um know how passado de geração em geração. E agora estamos todos um pouco perdidos, as mulheres, os homens, os travestis e até os gatos de estimação.”

Roubei essas frases de um e-mail recebido recentemente de um amigo querido, chamemo-lo aqui carinhosamente de homem-frigobar. Um pouco assim porque o rapaz escreve bem e facilitou minha reflexão, outro tanto por um instinto de vingança ancestral feminina contra todas as palavras que os senhores escritores (gênero masculino, número plural) roubaram de esposas, amantes, mães ou amigas ao longo de muitos séculos sem nunca dar-lhes o crédito. Naqueles tempos não achavam sequer que mulher escrevia. Era algo assim dos machitos, como alfabetização, política ou essas coisas menos importantes que os bordados como votar, exercer cidadania, ter opinião. Por exemplo.

“Talvez os mais inseguros e perdidos sejam os homens”, ele diz, achando complicado ser masculino, impulsivo e viril num mundo em que alguém pode te mandar para cadeia por ter feito sexo sem preservativos, como aconteceu com o cara do Wikileaks. Ele se assusta porque hoje as mulheres “têm também um poder econômico e social muito grande” (tudo isso ele disse porque soube que fui mãe e acredita que temos um “poder de decisão sexual”, de “escolher quem vai passar os genes para a próxima geração” que o homem não tem).

Querido homem-frigobar, veja bem. Bendito seja o Senhor pelo poder econômico e social que nós, mulheres, vamos conquistando à base de migalhas e grãos de areia desde o infinito dos tempos – mas que, como você pode entender, está ainda muito longe de uma condição de igualdade em relação ao sexo oposto. Eu mesma duvido desse critério da igualdade para mensurar coisas tão diferentes, como o feminino e o masculino, o made in Venus ou made in Mars. Mas é o menos piorzinho que existe no momento, então vamos lá. A gente ainda ganha menos economicamente. E estuda mais, está mais bem preparada. E passa incontáveis horas a mais fazendo trabalhos não remunerados (como tudo aquilo que a senhora sua mãe sempre fez pelo seu bem dentro de casa, da comida às cuecas passadas – que cada uma aqui olhe para dentro de si e saiba até onde pode chegar). Veja o Congresso, a Câmara. As prefeituras. Isso é igualdade? Se é um poder social “muito grande”, pode preparar a voltagem que os amperes de pressão ainda precisam aumentar homericamente até nosso motorzinho social funcionar igual ao de vocês, varões.

Depois de dividir as contas com a patroa (muito 80s isso, por sinal! Welcome to the 21st century!), está complicado dividir também as tarefas domésticas? Você agora não é mais um bom partido se não souber cozinhar, se não deixar a cozinha arrumadinha, fizer a lista e a compra do supermercado (sem esquecer dos nossos cosméticos favoritos), colocar a roupa para lavar (tirando as manchas a mão se necessário) e, principalmente, tolerar nossas calcinhas penduradas no box e respeitar o horário sagrado da novela (aquela preocupação de abaixar a tampa da privada era do tempo do meu avô e esse defeito genético já foi corrigido na geração 1979.3.5.6.beta). Caso pense em procriar (e não só nos ensaios gerais para o ato), vá se informando sobre as últimas correntes pedagógicas, montando agenda de visitas para elaborar seu casting de escolinhas e berçários e saiba que você terá que ir nas reuniões bimestrais com as professoras (a desculpa de “papai está trabalhando” está muito, muito fora de moda, tão brega!). Sem falar em se documentar e por a mão no bolso para atender todos os caprichos relacionados ao parto ideal da parceira (cada uma saberá de si).

Difícil, meninos-frigobar? Pois não. Difícil é ter toda a lição de casa das mocinhas do novo milênio em dia, andar de salto alto com passo firme, cabeça erguida e unha feita, linda e cheirosa, educando os pequenos trogloditas que você carregou nas entranhas para que eles dêem um passinho a mais na cadeia evolutiva do Piteco. Ah, claro, e estando com um carinha como você. Que reclama porque a gente quer que você use creminho anti-rugas pra ficar mais inteiro daqui a 30 anos e não tenha barriga de cerveja.

Nesse cenário, diz o meu amigo, o camarada se sente perdido, totalmente fora de lugar, “como se fosse um frigobar no banheiro”. E acaba se sentindo fraco. E broxa. E acha que todo mundo acaba infeliz assim.

O que eu acho? Eu acho que a mina que foi pra cama com o Mr. Wikileaks realmente é um pouco bitch de estar acusando o cara de estupro, abuso sexual ou whatever. Mas também gostaria de lembrar que há não muito tempo (ontem?) muitas denúncias de estupro 1) não eram feitas 2) não eram levadas a sério porque o acusado era o marido 3) eram desconsideradas porque a mulher era acusada de ter seduzido o sujeito porque usava minissaia ou qualquer outra roupa que ela quisesse e o estaria provocando. Isso para não falar numa coisa que se chama Lei Maria da Penha. Então, não, não acho que seja fácil decifrar o manual de instruções dos relacionamentos entre os sexos da Era de Aquário, mas também não acho que exista desculpa para o homem se sentir um fraco. E menos ainda de broxar conosco. Afinal, a beleza e a delicadeza (que pode ser entendida como fragilidade) são a essência da feminilidade, e a isso, ser feminina, desculpe, mas não vamos renunciar (e viva aos terninhos da Marta Suplicy!)

Não lamento nada dizer que só resta aos homens-frigobar se reinventarem. Se quiserem, posso passar o telefone do seu Wilson, o meu técnico do ar-condicionado, que tem um primo que mora no exterior e conhece uns modelos diferentes que às vezes funcionam com nossa voltagem. Se quiserem tentar trocar uma peça para ver o que acontece, ele conhece um arquiteto-engenheiro da FAU que anda testando umas coisas experimentais que parece que estão agradando a mulherada.

Mas, por favor e principalmente, não desanimem, há esperança e o entendimento é possível: eu só posso concordar com meu amigo quando ele diz que “é preciso encontrar um ponto de estabilidade onde todo mundo esteja mais ou menos feliz. Pena que ninguém tenha a mais mínima ideia de onde esse tal ponto pode estar”.

Womber Woman