terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sobre o Dom Capoeira e a Miss Universo



Ir ao Poupatempo refazer RG pode ser tudo, menos uma economia de tempo. Ainda bem que, como alienígena recém-chegada, ainda consigo achar alguma graça nos aprendizados antropológicos do dia a dia. Por exemplo, observar o ir e vir dos senhores que ainda usam chapéu, um prazer secreto. Nas quatro horas que passei lá (uma e meia das quais em pé numa fila, esperando que chegasse minha bendita vez), pude dedicar-me a outro de meus passatempos favoritos: roubar histórias para saboreá-las e recontá-las depois.

Estou lá sentadinha no meu banco (e no de outros mais de dez neguinhos) quando se instala a meu lado um senhor bem apessoado, moreno, charmoso até, com seus 50 e tantos anos e cabelo grisalho. O senhor começa a falar no celular e eu, discretmente (que feio!), espichei a orelha e fiquei ouvindo. Eu e a torcida do Flamengo, diriam alguns, naquela densidade de umas 10 pessoas por metro quadrado. Mas confesso que coloquei mais atenção no telefonema do que mandaria a cortesia.

- Então, Leonardo. Mede o ângulo, dispara o temporizador e guarda a medição pra mim. Isso vai dar umas 17 estacas.

- ...

- Não, não. Tô meio aperreado aqui no Poupatempo, acho que daqui a umas três horas eu consigo sair. Mas olha, daqui uns dois meses vou ligar pra você que vai ter trabalho lá na construtora. Estão precisando de topógrafo e assistente de topógrafo. É. Vão fazer um condomínio, compraram uma área de 500 mil metros. Vai ter trabalho para uns dois anos.

- ...

- Você não sabe da última. Sabe que o patrão queria me mandar pro Amapá? É, Amapá. Disse que ia me pagar seis contos. Limpos. Mas pra que eu vou querer ir pra lá se não está ruim aqui? Tá louco que eu vou deixar a minha mulher? Só tenho uma só, a única que Deus me deu, como é que eu vou largar ela assim! É ruim, hein?
- ...
- O Tiago? O Tiago ganha quatro mil. Ele tá lá, fazendo as coisas dele em Autocad. Eu? Hmmm. Eu ganho três e quatrocentos. Mas é que eu não sei Autocad, só sei de terreno. Mas você fica tranquilo que lá na construtora vai ter trabalho pra você, você é minha primeira opção. Quanto você tá ganhando aí? Novecentos contos? Tá louco! Eu consigo subir você pra mil e seiscentos. Como assistente de topógrafo. Lá eu mando em tudo, mando em todo mundo, até no patrão!

- ...

- Hein? Não, claro que eu não mando no patrão. Mas ele tem muita confiança em mim. É muito bom de trabalhar lá.

O sujeito desliga, olha pra mim, faz aqueles comentários básicos sobre os trocentos números que ainda temos na frente (eu, uns trinta; ele, uns sessenta), se sente à vontade e como gostei da eloquência dele vou dando corda. Ele morde a isca:

- Faz três dias que tô enfiado aqui tentando renovar o RG. Fiquei nessa fila toda [uma filha de 1h só para chegar na triagem], aí eu tinha esquecido o xerox, fui fazer a cópia e tive que entrar na fila de novo. Agora ainda por cima vou ter que responder um processo criminal, acho que vai demorar mais.

Eu arqueio as sobrancelhas. Puxa, é mesmo?

- É, faz três meses dois sujeitos chegaram assim para me roubar, um deles enfiou a mão no meu bolso, pegou a carteira com vinte e cinco reais e o RG e saiu correndo. O outro estava com uma arma. Eu sou capoeirista. Bom, era. Mas no que ele se distraiu assim um pouco para ver o outro correr, eu girei e ataquei ele, quebrei costela, quebrei braço, enchi o cara de porrada, peguei a arma dele e rendi ele, aí comecei a chamar um policial que estava ali perto e não tinha visto nada.

Ou fingindo que não tinha visto, acrescento. E ainda digo: O senhor viu que bonito, ontem no concurso da Miss Universo saíram uns capoeiristas na abertura, apesar de ser tudo coreografado, estava bonito.

- É. Faz muitos anos que eu jogava capoeira, agora não luto mais, mas a gente não esquece, não, continua sabendo. Então tive que fazer BO e agora estou sendo processado. Porque quando você sabe caratê, kung fu ou alguma arte marcial, eles consideram como se você tivesse uma arma. Mas não vou pegar cadeia nem nada, não. Só vou ter que ir lá dar explicação.
Aí ele me conta algumas façanhas de sua vida de macho capoeirista anterior, uma briga no forró mais de quinze anos atrás quando foi jurado de morte por três figuras, outra em que a parentela de Marília ficou com ciúmes porque ele paquerou uma moça bonita e quis partir pra porrada.

- É que eu sou um cearense arretado. Eu sei dar uns dois, três golpes letais. Mas está proibido usar em roda de capoeira. Senão, você mata o amigo. Hoje eu sou da paz, não quero confusão, sou um servo de Deus.

E assim tive minha aula de geopolítica popular particular e pude atualizar o sistema operativo para (re)encontrar algumas conclusões. De que o país realmente tá bombando no setor da construção civil (profissionais, aproveitem antes de que a bolha estoure). E a lentidão das burocracias e da máquina pública, aumentando. De que a vítima do assalto acaba processada pela incompetência da polícia e o malandro continua solto. E de que as igrejas evangélicas continuam arrebanhando fiéis. Tudo isso regado a forró e capoeira, mais verde-e-amarelo, impossível.

Conclusões muito fáceis e superficiais, eu sei, eu sei, mas que de alguma forma têm um pé na nossa realidade.

São perfeitas, isso sim, para você continuar a conversa com aquele pai do seu amigo que veio reclamar da corrupção no governo. Agora tenho lamúrias fresquinhas e atualizadas, vivenciadas em primeira mão.

Darling Darling, happy to be back to Brazil.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ninguém + vê TV

(e outras Revoluções)



Nas últimas 10 conversas, com 15 amigos diferentes, no almoço de família. Falamos sobre O Facebook. Eu sonhei com o Marck Zuckerberg semana passada tal a Ica que eu tava do Face.

Se você estava achando que o problema era só seu, que as séries estavam ficando sem graça, que você tava preferindo comer qualquer coisa rapidinha e que sua cabeça passou a funcionar com a introdução:


“No que você está pensando agora?”, não se preocupe, você não está sozinho.


Todo mundo se condena no começo, critica os outros, tem a turma dos “não tenho tempo pra isso” (esses são os que não tem Iphone ou Blackberry), a turma das psicólogas bionergéticas: “eu prefiro o contato humano autêntico e verdadeiro” (essas são as que não tem Iphone ou Blackberry) e tem o resto do mundo que entendeu que ou usa. Ou usa.
Piadinha infame sobre o uso da ferramenta da tecnologia nas redes sociais- Sabe como se faz sexo com um urso? Do jeito que ele quiser!



E assim a gente vai, updating nosso jeito de se relacionar há 2 minutos, há 4 horas, há 16 horas... e se você ainda acha que isso aqui não é pra valer, amiga, amigo, é porque ainda não chegou a sua vez de querer escrever em letras garrafais aquelas mensaginhas estranhas: "Pague minhas contas e ganhe o direito de cuidar da minha vida..."
Você ainda não teve vontade de gritar isso no Mural de alguém?
Espere, aguarde a sua vez.


Frase célebre (e pouco elegante, como não poderia deixar de ser) dos tempos áureos da facul, “Quem tem cú tem medo”, update 2011- Quem tem Face tem medo.


Ou você ainda não terminou um relacionamento com alguém que tenha um Perfil? Ou começou um? Pense bem, logo mais isso não vai ser a exceção. Aguarde, e veja se vai resistir a ver TODOS OS DIAS o que a pessoa postou, as fotos das viagens e dos finais de semana dela, e o mais ardido, instigante e dolorido, o que as outras postam no Mural dele.
E a ex louca que acha que você está escrevendo em mensagens cifradas só pra ela entender?


Não mencionando todos os contatos profissionais e blábláblá, não tem o que discutir os ganhos e proveitos de um espaço onde tem email, vídeo, foto, aliás, andei notando um acontecimento interessante, os emails na minha caixa de entrada se reduziram aos do meu avô, da minha tia e aos do DVDs de aprenda a dançar com Carlinhos de Jesus (fora os de trabalho).

Ah Zuckerberg, guardasse essa idéia pra você e seus amigos nerds, o que você fez com a gente?


Ninguém + vê TV (nem manda email).


Ou tem alguma série que consegue ganhar do Big Brother em tempo real das pessoas da sua própria vida? Que revolucionário deixarmos de ser expectadores sentados no sofá para nos tornarmos anfitriões, personagens e autores da mídia virtual.

Não existe + solidão no trânsito, você encontra um amigo que não vê há 6 anos numa festa de aniversário e: “Eu vi as suas fotos em Barcelona, como foi a viagem?”.



A intimidade e a privacidade terão que ser revistas em novos termos.


E eu não vou acabar escrevendo que a voz e a pele são os contatos que realmente importam porque Jesus, já tem gente sem Iphone e Blackberry o suficiente pra falar isso!

Aliás, uma pesquisa com certeza paga por essas duas empresas garante que quem tem esses dois aparelhinhos faz X % + sexo que as pessoas que não tem, então amigos nostálgicos, se a questão é de voz e de pele, se adiantem!

Mas anyway, aproveitando a onda das atualidades, estou lançando, com minhas sócias Paris Hilton e Lindsay Lohan a mais nova casa de Rehab e Detox do momento.

Facebook Rehabilitation, para os que já reduziram as horas de sono em mais de 4 horas por causa da ferramenta, os que passaram a comer só comida requentada no microondas (pirigando estar estragada), os que aumentaram a dose de ansiolítico porque não sabem não responder aos amigos que pululam online para conversar, aos que saíram pra beber por ter sido excluído do perfil de alguém. Os que postaram + de 3 vezes na semana frases com sentidos homônimos aos "Caralho, vai cuidar da sua vida!"


Deixe seu Iphone/Ipad e seu Blackberry na entrada, pegue sua dose de Rivotril e venha para as sessões de terapia em grupo falar:


“No que você está pensando agora”.

Por Mirabelle
Funciono por Facebook/ SMS/ bbm/ WhatsApp Messenger

sábado, 3 de setembro de 2011

Dançar com você


De manhã minha vontade de calor não é suficiente pra apressar o quente a chegar antes.

Acordo depois de lanche de madrugada com ainda mais fome, porque é fome de outra coisa, que não se mata com comida, no matter quanto x-burger com batata frita, Milk shake e pizza requentada.

Fome de volta de balada. É aquela fome que a gente vê criaturas devorando lanches na madrugada, uma fome que mistura chapa de padaria, vodka, queijo, cimento, cerveja e fumaça (mas na hora nem parece ruim). A fome-de-outra-coisa, fome de algo que se foi procurar e não achou e voltou com menos nome, no negativo, dando fome. A barriga voltou mais vazia do que foi, roncando, exigente, nervosa. Estranho que come-se isso, cheio de maionese, e vai se emagrecendo. Provavelmente pelo poder desnutritivo calórico que vai consumindo outras coisas por dentro.


A voz da Vanessa da Mata, que é tão de manhã, que dá vontade de andar descalça e amarrar o cabelo (aquele cabelo) com uma flor de chita, e fazer suco de manga, e lavar a louça que ficou na pia. Ainda bem que tem ela pra explicar essa fome que continua a roncar a barriga depois de um lanche que você nunca comeria na sua dieta normal.

“Fico desejando nós gastando o mar”

E esse frio que não vai embora?


It feels like years since it's been here.

A voz dela alaranja o ar, e vai dando palavra para a fome que silencia um pouco o barulho que a barriga faz, revolta e exigente por algo (que agora você sabe que não se trata de comida, e talvez que não seja a barriga).

Não é fome não, é outro espaço vazio, desocupado. É vontade de dançar, mas vontade de dançar que não se mata dançando em qualquer lanchonete, vontade de dançar caprichosa, seleta, exclusiva, esfomeada.


“Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você”


(Amado- Vanessa da Mata)


+ um pouquinho de Vanessa da Mata
"Vem
Que eu sei que você tem vontade
Que eu sei que você tem saudade de mim
Antes que haja enfermidade, que eu não me recupere mais
"


Por Mirabelle




(Foto de Dane Shitagui, fotógrafa havaiana que fotografa bailarinas em NY)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poderosa

A maioria dos que já estiveram em feiras hippies, em raves e os viajantes viajeiros que passaram por qualquer Chapada (dos Veadeiros, Diamantina, Guimarães), ou por Arraial, Caraíva, Maromba, Itaúnas, enfim, muitos dos lugares lindos do Brasil se depararam com o que restou dos hippies, movimento que virou o pessoal da Nova Era na década de 90, uns poucos participaram das raves no começo. Esse pessoal fala a mesma coisa, sobre o calendário Maia, o dia fora do tempo, e todo aquele papo de conexão com a natureza e tal e blá e pá. Junto com os intelectuais do calendário Maia tem os que mostram os “trampo” sempre iniciando a conversa com o famoso “Olá que tal?”

Pra ser sincera sempre morri de preguiça dessa gente toda, apesar de respeitar as crenças de toda e qualquer pessoa, um amigo querido dizia que acredita e respeita até a crença no monstro do lago Ness. Não duvido que minha especial preguiça com esse pessoal provenha de umas lembranças infantis da minha mãe levando a mim e ao meu irmão para ver disco voador e nada, nada, falando que a gente tinha que mastigar o tal do arroz integral com gersal 30 vezes.

Dizem que por causa do solo rico em cristal a Chapada dos Veadeiros em especial concentra um certo tipo de energia, aí vem todas as histórias de discos voadores e todas as idéias esvoaçantes a esse respeito. Mas enfim...procurando um lugar para comer em Alto Paraíso eu e um amigo em tom jocoso brincávamos com os nomes dos estabelecimentos comerciais batizados pelos proprietários com os pronomes reveladores das crenças locais, tais como: Aquarius, Cristal Lilás, Alquimia e por aí vai.

Mas, você acorda e pela manhã vai por estradinhas que fariam Van Gogh trocar a Provence pela Chapada, tais as cores daquele lugar, a poeira de talco é de um marrom rosa que sobe no carro, na boca, nas árvores retorcidas do cerrado e em uma quebra da estrada um ipê amarelo florido brilha as florzinhas que parecem que vão sair voando no azul mais profundo que o céu já fez.

Caminhando por um canyon alto você mergulha e a pele quente arrepia na água fria, vai boiando na corrente que te leva por vezes mais rápido, em outras curvas mais devagar até uma prainha de areia e a brincadeira de criança grande de água gelada com sol quente deixa a gente alegrinha com esse brinquedo que Deus inventou e deixou ali, vazio, sem ninguém, só pra você e pra ele. E sem perceber você se sente grata.

Só porque é sábado depois da pizza tem lua cheia e você sobe em um morrinho e acaba pensando que a lua nunca esteve tão perto e sem nenhuma religiosidade especial dá vontade de rezar e de chorar, e dá pra entender o que antes parecia uma brincadeira, dá vontade de ter uma filha e chamá-la de Lua Lilás (ou Morena). E esses pensamentos não parecem seus, parecem só se manifestarem em você porque você está ali, entre a lua e o chão.
A Chapada não te faz sair se preparando para o que o calendário Maia diz sobre o fim do mundo em 2012, te faz pensar na poderosa mudança.

Contra todas as suas crenças, quando você se vê de ponta cabeça, trocando aquele filme que todo mundo fala que “tem que ver” por uma cerveja, quando troca dormir bem por dormir mal, quando fala o que antes não ousava dizer, quando acha um porre aquele filme alemão em preto e branco e se percebe achando as pessoas criaturas interessantíssimas e pára para conversar, por causa da lua e da água não dá pra negar uma Poderosa Presença.


Quando você entende o que desgostava e vai se tornando um pouco do que criticava, pensa na

Poderosa Chapada.

E só para não sair do clima... eu prefiro seer essa metamorfose ambulante...

Por Mirabelle

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Goodbye

Há alguns anos, na faculdade, uma pergunta surgiu como uma questão importante diante de mim: porque sinto prazer com uma obra de arte? Porque a humanidade ouve música, vai ao teatro e lê?
Porque pessoas vão ver a Monalisa há centenas de anos? E nós de vez em quando precisamos ouvir aquela música (muitas vezes)?
O que uma música conversa com a gente a revelia da nossa razão e consciência? O que um quadro fala com nossos olhos que nós mesmos não vemos? E outra pergunta, que vinha junto com essa: O que faz uma obra de arte ser duradoura e outra passar desapercebida de um carnaval para o outro?
Fui fuçar em quem já se perguntou isso e na psicanálise encontrei mais ou menos assim (Segal 1952/1982):




A obra de arte, seja a música, a poesia, a imagem da fotografia ou o cinema, faz um eco dentro de mim, espontâneo, natural, como se eu passasse diante dela e me visse ali, refletido em um espelho. Assim se daria a identificação de cada um com certo tipo de arte e de artista, guardadas as especificidades de cada indivíduo, uma pessoa é mais tocada pela música, outro pela linguagem da poesia, ou pelo teatro.



Olho pela lente daquela música (ou poesia, cinema) e ali eu me enxergo, vejo a minha dor (a minha história). A minha questão pessoal, ali, ganha contornos, melodia e palavras, ou cores e texturas. Aquele artista tem um mundo destruído e caótico assim como eu o tenho, mas tem a condição- que eu não tenho- de criar algo a partir desse sofrimento e desse caos, a com isso ele faz som, imagem e letra e entrega à mim. Ouvindo essa música minha dor toma forma, ganha palavras, timbres e à medida em que a ouço repetidas vezes, saio da minha sensação confusa e obscura mais enriquecido e inteiro (as crianças precisam assistir desenhos que tratam das suas questões emocionais diveeeersas vezes).


"É tentador sugerir que isto ocorre porque em uma grande obra de arte o nível da negação do instinto de morte é menor do que em qualquer outra atividade humana, que o instinto de morte é reconhecido, tão plenamente como pode ser suportado. É expresso e aprisionado para as necessidades do instinto de vida e da criação" (Segal, 1952/1982, p. 270).

Dá pra dizer, pelos artistas que tiveram vidas perturbadas, enlouquecidas, prematuramente interrompidas, que talvez eles tenham coragem (condição/ única alternativa?) maior que outras pessoas de se ater, de sentar na calçada de suas dores até dali nascer música, quadro e poesia.


Dos poucos momentos de grandes dores (para mim foram as minhas grandes) que tive, eu só quis que elas passassem, só quis me livrar e de preferência que ninguém ficasse sabendo. Ela ganhou 5 Grammys com as dela. Em uma obra de arte a negação do instinto de morte é menor do que em qualquer outra atividade humana...



Ter coragem de negar o instinto de morte menos que qualquer um. Não vejo ninguém mais generoso que um artista que nos presenteia com sua obra, a revelia da própria vida, não que isso seja consciente ou caridoso, provavelmente ela não poderia fazer nada diferente do que fez.

Alguém que senta perto da morte e nos ajuda ao dizer que quando “you go back to her/ I go back to black” e que “love is a loosing hand” (quem joga pôquer há de entender isso de uma maneira + interessante), dá nome á um sentimento à revelia da norma vigente dizer que todo mundo pode sair com todo mundo, o que a gente sente quando ele vai embora (He walks away) é que “the sun goes down/ He takes the day, but I´m grown/ And in your way/ in this blue shade/ My tears dry on their own”.


A artista que não apenas pela poesia da letra, mas pela autenticidade da interpretação, pela pegada nova do jazz, teve o talento para capturar e transformar em experiência comunicável toda uma dimensão apaixonada dos relacionamentos e das dores desses, atual, livre, louca, independente, sofrida, carente, compulsiva e solitária.


Ela podia não ter morrido? Ela podia ter feito a música que fez se não tivesse essa proximidade com o sofrimento? Esse enamoramento com o trágico?

Deixo meus sentimentos de gratidão. Sem ela, muitas lágrimas teriam ficado sem nome.
I say my goodbye in words...



Missis Amy Winehouse



Por Mirabelle



Segal, H. (1982). Uma abordagem psicanalítica da estética. In H. Segal, A obra de Hanna Segal. P. 245-272. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1952).

domingo, 17 de julho de 2011

Etiqueta modernets

Hoje em dia quando você conhece alguém, acabou o romantismo, as flores, o mistério, a expectativa do universo aguardar se vocês vão se encontrar de novo, se um amigo tem o contato dela e tal, a pessoa nem pergunta mais o telefone, os mais rápidos e modenets te adicionam na hora ali na sua cara via Iphone no Facebook, ai da sua foto estar uma droga ou que merda é essa configuração que o nosso querido Zuckerberg inventou de aparecer bem ali na frente as fotos nas quais você foi marcado??????? E se a foto estiver horrível?


Minha tia colocou lá no álbum dela uma foto na qual me marcou em que estou em minhas 7 ou 8 primaveras (parafraseando meu avô) nos requintados anos 80, década em que a moda era, não sei se por pura maldade dos estilistas gays da época, não sei se por eu morar em Campinas city: o corte de cabelo Chitãozinho...

Aí você conhece o seu futuro pretendente a jogar o cabelo e fazer beicinho e na hora, sem você poder se defender nem nada, ele já vê você com o seu irmão, prima, tio e tal todos exibindo o corte do momento: eis que o momento é 1989.

Se as intenções forem mais sérias e o sujeito quiser um contato via voice... porque FALAR VIA VOZ com um ser humano se tornou o contato mais íntimo que se possa imaginar do momento. O indivíduo te manda uma mensagem (desculpem, me recuso a falar torpedo, acho esse termo cafona), exatos 1 segundos se passm e você liga/telefona/disca (haha) para o número... eis que a pessoa não atende.



Você pensa, ela está ocupada, tipo “em uma reunião”!! Acho chique as pessoas que estão em reunião, e aquelas que atendem e falam baixo: eu tô numa reuniãozinha, posso te ligar depois? (a-do-ro imaginar essas pessoas atendendo embaixo da mesa). Essas são as que gostam de se fazer de importante. O + incrível é que tenho uma amiga cirurgiã que sempre atende, outro amigo juiz que também sempre atende e um amigo vendedor que sempre "está em reunião"...


Mas continuando a cena mais comum do século estranho em que nos encontramos, você pensa que a pessoa não pode FALAR, por isso ela ESCREVE. Logo em seguida à sua chamada, o indivíduo "text you" novamente, “falando” (os termos precisam ser revistos pelo Aurélio) qualquer coisa, aí você compreende (se é que isso dá pra entender) que a pessoa prefere não falar. Aí você, que é um ser que nasceu no século retrasado, entende que FALAR se tornou algo assim muito carnal, muito próximo, muito íntimo. Ah a voz, a melodia, o som...

Outra pergunta importante quando se chegou à intimidade de se perguntar o número do celular. Atenção o telefone de casa é proibido, só as mães e as avós têm telefone em casa, se alguém perguntar é porque o cara deve: 1- ou querer casar com você ou 2- ter um amigo na prisão, pode chamar a polícia porque a pessoa pode estar tramando ligar para simular um seqüestro, cuidado!

Ok, sua relação chegou ao ponto da intimidade da relação vocal. Parabéns o sujeito tem sérias pretensões com você (ou um amigo preso). Pergunte sem medo se o celular da pessoa é TIM e anote na sua agenda do celular, porque gente, vamos combinar que não dá mais pra ligar pra celular que não é da TIM né? E atenção, isso não é questão de muquiranagem ou falta de dinheiro na sua conta bancária, é uma questão de protesto do cliente, não vamos mais telefonar para pessoas que tem Vivo, Claro, pessoas que tem TIM ganham uma estrelinha na sua agenda e podem ser chamadas a qualquer hora do dia, da noite (hummm) e de qualquer lugar do Brasil. Essa é outra estranheza da sociedade atual, mas tem que ser atualizada na sua lista de etiqueta de interação social.

Repassando:
Não pega bem adicionar a pessoa assim na frente dela, anota o nome e adiciona depois, vai que a foto tá feia, um pouco de elegância né gente!

Não tem problema perguntar se o celular da pessoa é TIM e não, não é porque você não tem dinheiro, é porque os preços das operadoras são abusivos!

Etiqueta em tempos modernos!!

Joga o echarpe via SMS ;)

Por Cocobelle

terça-feira, 12 de julho de 2011

It is still so fun

Eu sou aquela que acordou a cada pequeno choro ou suspiro contido por noites a fio sempre que eles precisaram. Sou aquela que emprestou o corpo para gerar vida e alimentá-la, exausta ou insone, os bíceps tarimbados por sempre ter estado ali quando os pequenos braços se estendiam a mim.

Também sou aquela que postergou projetos por não existir projeto maior que um ser humano menor que você capaz de proporcionar tamanha ilusão de posse: meu filho, minha filha. Tão incoerente que você se dedica a ensinar-lhes, inexaurível, a fazer o que querem, e não o que você manda.

Eu sou tudo isso. Mas sou também aquela que aprende a gritos internos – com a generosidade e disponibilidade do parceiro – a ser egoísta o suficiente para afastar-me por três horas de voo e sete dias até viver outra vida talvez menos desejada, mas não menos merecida.

Eu fui aquela que o encanto dos DJs obrigou a dançar na areia diante do azul mediterrâneo, sereia serena, até o sol se por ou raiar, cinco anos mais jovem segundo os olhares alheios que, como eu, podem não me imaginar ali. Mas fui e cumpri e fiquei morena para mergulhar até as profundezas de meus mares mais cristalinos, permitir-me aproveitar a condição de mulher brasileira bela e jovem e tão exotiquinha numa ilha exclusiva como self-gentileza por tudo o que custou chegar ali. Que pouco espaço existe entre ser turista e imigrante.

Também encantei e bebi grátis na piscina com vista cinematográfica, entrei como convidada nos templos da música eletrônica sentindo-me sagrada, até emprestar as costas sob céu estrelado para quatro mãos macedônias estudarem massagens recém-aprendidas eu emprestei. Merecidamente.

Sou tudo isso, sim. Queria ter sido todas as mulheres do mundo para que elas pudessem ser um pouco de mim. Como gesto de gratidão por toda a inveja que já tive daquelas que não eram eu algum dia, essa coisa tão feminina. Parodiando uma leitora, eu digo: “eu tenho dó de quem não é a gente”.

Volto mais plena, não com menos saudades dos meus. Que o mundo abrace minha pele morena, não tenho medo, quem irá devorá-lo sou eu.


Para Mirabelle, Cri e Asdrúbal, que fizeram esta aventura possível.

Womber Woman, Mykonos, verão europeu de 2011.