segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A gata e o homem-barco



A gata era gata não por atributo de beleza, mas porque se enroscava, e miava. Tinha uma casa colorida, com bolinhos que cresciam no forno de boneca deixando tudo com cheiro de açúcar.
O homem-barco tinha um sofá coberto com uma manta, coisas que sempre estavam no mesmo lugar em cima da mesa e um quadro, não pendurado na parede, com uma camisa de time de futebol dentro.

A gata era mulher-lugar, o homem navegava e se encostou ao lado dela.

Ela não sabe se era porque ele a chamava de gatinha que se enroscava daquele jeito no pescoço dele. E enroscava que nem gato se enrosca, passando por baixo da perna e esticando pra encostar, fazendo carinho em si mesma. De noite era bom de acordar só pra tocar qualquer parte nele, o lado do pé, o ombro.

E ele era grande como um barco, homem-lugar onde ela queria ficar, suspirava pra si mesma, para sempre. Achava que nunca ia cansar (ele tinha medo que ela enjoasse) daquela conversa silenciosa entre as peles deles.

E que nem gata que acorda e se aconchega girando no mesmo lugar, ela fazia no peito dele, como se coubesse inteira, encolhida ali. Ali onde dava vontade de sorrir, e ele vivia perguntando o porquê ela ria, pensando que ela escondia algum segredo, mas nada era secreto no sorriso, era um sorriso de contente de quem acha um lugar que tem um cheiro tão bom que dá vontade de rir.

“Coisa de bicho mesmo isso parece”, pensava ela, quando fazia os bolinhos matutando que ele nem devia achá-la bonita assim, perto das outras mulheres, que ela bem sabia, ele também chamava de gatinhas.

A gata tinha montado sua casinha com fotos e tapetes, almofadas de borboleta e lixeiras de rosa, abtjours e velas. Era um lugar pronto para se chegar, visitar, e quem sabe ficar. O homem-barco atracou ali na casa-da-manta-no-sofá por acaso, veio navegando sem saber a direção, ele diz que perdeu sua bússola numas tempestades por onde passou. Nessas tempestades ele deixou outras coisas também, que ele não sabe direito, mas lhe fazem grande falta.

A gata mudou e trouxe sua casa dentro dela, ela chegou e a casa foi saindo e se ajeitando pelas paredes e pela varanda do lugar novo. Ela sabe que casa não é lugar fora, parede de tijolo, madeira e tinta, mas lugar dentro que se leva aonde se vai.

O homem-barco não trouxe a casa dele dentro, deixou n´outro lugar, ele ainda não sabe (ou tem medo de) ir buscar. A casa dele é que faz falta, porque sem casa-dentro não se tem lugar onde acomodar as visitas quando elas chegam. Mas a gata encontra uma almofada no peito dele, e fica ali, quentinha.

A gata queria falar pra ele que o que ela gostaria, o que ela deseja mesmo é que ele possa ir buscar o coração e trazer pra perto, e assim quem sabe encontrar o caminho pra casa no sorriso dela.



Por Mirabelle


(Post re-postado, original de 10/fev/2010)


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Uma Velha Nova história



O Rafinha Bastos já disse que:
- Mulher feia que reclama que foi estuprada devia agradecer e que isso não é crime, é oportunidade;
-Mulher não devia amamentar em público... blá blá blá alguma barbaridade acerca dos mamilos maternos,
- Ele, no meio de uma piada falou que a mulher do dono da Rede TV (Daniela Albuquerque) era cadela e se desculpou depois, porque “não era uma mulher qualquer”. Vejam só, se fosse, podia ser cadela;
- A última bestialidade do moçoilo foi dar o último tiro no pé: “Eu comia ela e o bebê”, sobre a Wanessa (ex Camargo), grávida de 5 meses.

Acabo de ler que ele foi afastado definitivamente do CQC depois de seu colega de bancada Marco Luque ter apoiado a revolta expressa pelo marido de Wanessa (Marcus Buaiz- não que esses nomes importem tá? Só pra acompanhar as news) e de Ronaldo, este que sempre se mostrou parceiro do CQC.

A conversa entre homens foi mais ou menos essa: “eu, como pai, entendo e apóio a revolta e a indignação do Marcus Buaiz, um homem que conheço e respeito. Se fizessem uma piada com esse contexto sobre a minha família, certamente ficaria ofendido.”
Alguém notou algo de estranho?
Alguém percebeu que nada foi falado acerca do desrespeito à Wanessa? À mulher? À mãe?
Homem. Família. Pai.
O Rafinha Bastos ofendeu aos homens e agora sim os homens fizeram alguma coisa para nos poupar de mais absurdos que esse cara viesse a falar.

E mais um estranhamento. Ou só eu estranhei? Porque o marido dela falou alguma coisa? Ligou para o amigo que ligou para o jornalista? Uma mulher adulta, independente, profissional, que é ofendida e desrespeitada dessa maneira, não diz nada?

Que homens como Rafinha Bastos corram pelo mundo, como macacos soltos em uma plantação de bananas, eu até entendo. Foi muito tempo (não tenho certeza do tempo verbal) do homem livre e soberano no seu poder. Mas me pego pensando no outro lado, em um preocupante, obscuro, fugidio e escondido. O meu, o nosso.

As minorias violentadas nos seus direitos, ofendidas, agredidas nunca tiveram seu espaço oferecido pelos seus agressores, elas sempre tiveram que brigar por ele. Me pergunto de que maneira a mulher brasileira não faz isso.
E não faz isso bem de mansinho, bem disfarçadinho, sendo agredida sempre, de leve e de perto. Silenciosa e recolhida na falsa mini saia, no biquíni fio-dental mostrando tudo e velando a passividade e o sorriso de moça boazinha.

O Rafinha Bastos é um exemplo aumentado do que acontece em toda e qualquer rodinha de amigos, e quase nenhuma mulher se posiciona, assim como a Wanessa não disse nada.

Sou uma mulher que tem amigOs e amigos de longuíssima data, o que me permite um acesso ao mundo masculino que me diverte e me oferece a chance de ouvir histórias e experiências quase como um deles, um “Joh” (como diz um amigo de mais de 20 anos), e eu me pego escutando causos de mulheres, de pegadas, de amantes, de namoradas, de motel, de bagunças, de brochadas, de desilusões, de alegrias. E escuto entre curiosa, divertida e quase orgulhosa, de saber que não são todas as mulheres que tem a cadeirinha do camarote para olhar esse mundo assim, pela fresta da fechadura da confiança de tantos anos de amizade. Me divirto com as imagens das bundas e bocas e paixões e reclamações de cremes da Victoria Secret... mas algo acontece se eu cometo o erro fatal de achar que posso contar alguma coisa minha, simplesmente se cometo a gafe imperdoável de supor, de sequer imaginar que eu, mulher, tenho o direito de, no meio de homens, dividir alguma experiência...

-Ah Fulana... não acredito que você vai falar isso pra mim... não quero escutar ah não...

Aqueles homens, que tão confortavelmente me contavam suas histórias sentem-se ameaçados (ela vai falar de outro homem... buuuuu óóó- aahh amigos, homens, como vocês de ameninam com suas vaidades agigantadas, medindo com suas réguas imaginárias rivais que nem são seus) ressentidos, me olham com uma mistura de medo que logo tratam de transformar em julgamento, em condenação e PLAU lançam mão de alguma agressãozinho gratuita e incômoda... como fez Rafinha Bastos.

A melhor defesa é o ataque.



Mas as mulheres não se defendem, se calam, são agredidas sempre, em rodinhas em que leves toques de machismo aparentemente inofensivos são misturados na cerveja e em sorrisos amistosos.

“Ahhhh porque mulher gosta mesmo de dinheiro né?”

Nós meninas, brasileiras, crescemos ouvindo que temos que nos dar ao respeito, e não aprendemos que respeito a gente oferece a todo mundo, independente do comprimento da saia.

Não vou ser mais amiga de quem não respeita gente, de quem ofende, de quem agride. Não gosto de quem violenta gratuitamente, em especial minorias historicamente agredidas.

E cansei desse jeitinho brasileiro de fazer pizza com o que importa, com o que é sério, a clássica cordialidade dos panos quentes.
Rafinhas Bastos não são mais meus amigos, porque dignidade a gente não negocia mais.

Por Mirabelle




Leiam o Post no Escreva Lola Escreva


"Rafinha suspenso do CQC por ofender gente que importa"



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Mundo e os seus 2 únicos problemas


Tenho uma amiga psiquiatra que, de verdade, resolveu meus problemas, não em consultas e de jaleco, mas numa mesa de bar. Resolveu não, reduziu, dissolveu, minimizou e separou o mundo de forma simples e didática.

Quero compartilhar com vocês a TEORIA DOS 2 TIPOS DE PROBLEMA.

Eu sei que quando a gente fala assim já vem as amigas da USP, psicólogas falando: iiii não vai falar que você leu O Segredo??
Não! Não é do Segredo, não é auto-ajuda barata de botequim.
Abram seus coraçõezinhos.

Existem 2 tipos de problemas No Mundo:

- O problema do TIPO 1 e
- o problema do TIPO 2

O problema do TIPO 1: MEU PROBLEMA.
O problema do TIPO 2: SEU PROBLEMA.

Eu sei, eu sei, parece bocó, parece simplório, parece besta. Mas venham comigo aos exemplos e façam após essa leitura o exercício besta de tentar pensar nos 2 tipos de problemas nas + diversas situações que te acometerem com um vendedor de loja, com seu namorado/a, com uma amiga, com a sua mãe e com seu chefe.

Vendedor das Casas Bahia- Você discute o preço do fogão e o cara acha que você tem cara de otário e fala que o preço deles é bom pra caramba, você fala que leva o fogão se ele fizer o preço a vista em 10 vezes. “Aaaah aí eu vou ter que falar com o meu gerente.” “Então fala”. O cara fala, volta e claro que diz que pode fazer isso, com aquela discursinho que ta te fazendo o maior favor do mundo. Você agradece, fala que ta dando uma olhada e diz que se decidir volta para procurá-lo, pede um cartão com o nome dele e se prepara para sair.
Vendedor- Mas você volta em uns 15, 20 minutos?
PLIM
Ou você se vê obrigado, pelo vendedor das casas Bahia (Meu Deus, pelo ven-de-dor-das-ca-sas-Ba-hi-a), voltar no tempo que ele estipulou;
Ou, caso você não tenha uma natureza tão boazinha ou submissa, você sente um mal estar do cara tentar te impor um limite de tempo para um desejo DELE.
OU... você pensa nos 2 TIPOS DE PROBLEMA.
Ele quer que você volte- Vamos lá tiurma! Chamada oral: Qual tipo de problema é esse? Tipo 1 ou tipo 2? Tipo 2, problema dele! Então, com isso em mente você pode ser educada, elegante e não se irritar e responder:
Eu não sei em quanto tempo eu volto!
Legenda: esse problema é seu!

Se com o vendedor das Casas Bahia esse tipo de coisa acontece, com as relações + próximas e importantes esse tipo de confusão entre o que é meu e o que é do outro acontece com + força, + potência e causa grandes furdúncios.

Entre amigos, amantes, família, as pessoas fazem o tempo inteiro o jogo (sempre inconsciente) de enfiar no outro a responsabilidade de cuidar do que não lhe cabe.

Quando se fala em 2 tipos de problema, em "cada 1 no seu quadrado", pode se dar a impressão de certa frieza e egoísmo nas relações. Pelo contrário.
Só se pode estar junto quando se está separado.
Não existe estar-junto quando se está misturado com o outro/ no outro.

As mulheres, culturalmente criadas para serem boazinhas, submissas ao desejo do outro, são as rainhas de confundir tudo.

Uma amiga: não vou sair com ele porque ele quer alguma coisa a mais e eu não.
O cara quer alguma coisa com você.
De novo tiurma: Que tipo de problema é esse?
Problema do tipo 2. Problema dele.
Pensando assim ela pode sair com o cara, leve, livre de ter que se encarregar em dar conta do que ela imagina que ele quer. No fim da noite o problema do tipo 2 pode se tornar do tipo 1, se o cara for interessante e souber levar a conversa, se não, na “pior” das hipóteses, os 2 podem ter ganhado um novo amigo/a.

Parece bobagem, mas saber onde acaba o eu, e onde começa o outro é trabalho para uma vida.

Não é não, cara pálida???

Por Mirabelle

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sobre o Dom Capoeira e a Miss Universo



Ir ao Poupatempo refazer RG pode ser tudo, menos uma economia de tempo. Ainda bem que, como alienígena recém-chegada, ainda consigo achar alguma graça nos aprendizados antropológicos do dia a dia. Por exemplo, observar o ir e vir dos senhores que ainda usam chapéu, um prazer secreto. Nas quatro horas que passei lá (uma e meia das quais em pé numa fila, esperando que chegasse minha bendita vez), pude dedicar-me a outro de meus passatempos favoritos: roubar histórias para saboreá-las e recontá-las depois.

Estou lá sentadinha no meu banco (e no de outros mais de dez neguinhos) quando se instala a meu lado um senhor bem apessoado, moreno, charmoso até, com seus 50 e tantos anos e cabelo grisalho. O senhor começa a falar no celular e eu, discretmente (que feio!), espichei a orelha e fiquei ouvindo. Eu e a torcida do Flamengo, diriam alguns, naquela densidade de umas 10 pessoas por metro quadrado. Mas confesso que coloquei mais atenção no telefonema do que mandaria a cortesia.

- Então, Leonardo. Mede o ângulo, dispara o temporizador e guarda a medição pra mim. Isso vai dar umas 17 estacas.

- ...

- Não, não. Tô meio aperreado aqui no Poupatempo, acho que daqui a umas três horas eu consigo sair. Mas olha, daqui uns dois meses vou ligar pra você que vai ter trabalho lá na construtora. Estão precisando de topógrafo e assistente de topógrafo. É. Vão fazer um condomínio, compraram uma área de 500 mil metros. Vai ter trabalho para uns dois anos.

- ...

- Você não sabe da última. Sabe que o patrão queria me mandar pro Amapá? É, Amapá. Disse que ia me pagar seis contos. Limpos. Mas pra que eu vou querer ir pra lá se não está ruim aqui? Tá louco que eu vou deixar a minha mulher? Só tenho uma só, a única que Deus me deu, como é que eu vou largar ela assim! É ruim, hein?
- ...
- O Tiago? O Tiago ganha quatro mil. Ele tá lá, fazendo as coisas dele em Autocad. Eu? Hmmm. Eu ganho três e quatrocentos. Mas é que eu não sei Autocad, só sei de terreno. Mas você fica tranquilo que lá na construtora vai ter trabalho pra você, você é minha primeira opção. Quanto você tá ganhando aí? Novecentos contos? Tá louco! Eu consigo subir você pra mil e seiscentos. Como assistente de topógrafo. Lá eu mando em tudo, mando em todo mundo, até no patrão!

- ...

- Hein? Não, claro que eu não mando no patrão. Mas ele tem muita confiança em mim. É muito bom de trabalhar lá.

O sujeito desliga, olha pra mim, faz aqueles comentários básicos sobre os trocentos números que ainda temos na frente (eu, uns trinta; ele, uns sessenta), se sente à vontade e como gostei da eloquência dele vou dando corda. Ele morde a isca:

- Faz três dias que tô enfiado aqui tentando renovar o RG. Fiquei nessa fila toda [uma filha de 1h só para chegar na triagem], aí eu tinha esquecido o xerox, fui fazer a cópia e tive que entrar na fila de novo. Agora ainda por cima vou ter que responder um processo criminal, acho que vai demorar mais.

Eu arqueio as sobrancelhas. Puxa, é mesmo?

- É, faz três meses dois sujeitos chegaram assim para me roubar, um deles enfiou a mão no meu bolso, pegou a carteira com vinte e cinco reais e o RG e saiu correndo. O outro estava com uma arma. Eu sou capoeirista. Bom, era. Mas no que ele se distraiu assim um pouco para ver o outro correr, eu girei e ataquei ele, quebrei costela, quebrei braço, enchi o cara de porrada, peguei a arma dele e rendi ele, aí comecei a chamar um policial que estava ali perto e não tinha visto nada.

Ou fingindo que não tinha visto, acrescento. E ainda digo: O senhor viu que bonito, ontem no concurso da Miss Universo saíram uns capoeiristas na abertura, apesar de ser tudo coreografado, estava bonito.

- É. Faz muitos anos que eu jogava capoeira, agora não luto mais, mas a gente não esquece, não, continua sabendo. Então tive que fazer BO e agora estou sendo processado. Porque quando você sabe caratê, kung fu ou alguma arte marcial, eles consideram como se você tivesse uma arma. Mas não vou pegar cadeia nem nada, não. Só vou ter que ir lá dar explicação.
Aí ele me conta algumas façanhas de sua vida de macho capoeirista anterior, uma briga no forró mais de quinze anos atrás quando foi jurado de morte por três figuras, outra em que a parentela de Marília ficou com ciúmes porque ele paquerou uma moça bonita e quis partir pra porrada.

- É que eu sou um cearense arretado. Eu sei dar uns dois, três golpes letais. Mas está proibido usar em roda de capoeira. Senão, você mata o amigo. Hoje eu sou da paz, não quero confusão, sou um servo de Deus.

E assim tive minha aula de geopolítica popular particular e pude atualizar o sistema operativo para (re)encontrar algumas conclusões. De que o país realmente tá bombando no setor da construção civil (profissionais, aproveitem antes de que a bolha estoure). E a lentidão das burocracias e da máquina pública, aumentando. De que a vítima do assalto acaba processada pela incompetência da polícia e o malandro continua solto. E de que as igrejas evangélicas continuam arrebanhando fiéis. Tudo isso regado a forró e capoeira, mais verde-e-amarelo, impossível.

Conclusões muito fáceis e superficiais, eu sei, eu sei, mas que de alguma forma têm um pé na nossa realidade.

São perfeitas, isso sim, para você continuar a conversa com aquele pai do seu amigo que veio reclamar da corrupção no governo. Agora tenho lamúrias fresquinhas e atualizadas, vivenciadas em primeira mão.

Darling Darling, happy to be back to Brazil.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ninguém + vê TV

(e outras Revoluções)



Nas últimas 10 conversas, com 15 amigos diferentes, no almoço de família. Falamos sobre O Facebook. Eu sonhei com o Marck Zuckerberg semana passada tal a Ica que eu tava do Face.

Se você estava achando que o problema era só seu, que as séries estavam ficando sem graça, que você tava preferindo comer qualquer coisa rapidinha e que sua cabeça passou a funcionar com a introdução:


“No que você está pensando agora?”, não se preocupe, você não está sozinho.


Todo mundo se condena no começo, critica os outros, tem a turma dos “não tenho tempo pra isso” (esses são os que não tem Iphone ou Blackberry), a turma das psicólogas bionergéticas: “eu prefiro o contato humano autêntico e verdadeiro” (essas são as que não tem Iphone ou Blackberry) e tem o resto do mundo que entendeu que ou usa. Ou usa.
Piadinha infame sobre o uso da ferramenta da tecnologia nas redes sociais- Sabe como se faz sexo com um urso? Do jeito que ele quiser!



E assim a gente vai, updating nosso jeito de se relacionar há 2 minutos, há 4 horas, há 16 horas... e se você ainda acha que isso aqui não é pra valer, amiga, amigo, é porque ainda não chegou a sua vez de querer escrever em letras garrafais aquelas mensaginhas estranhas: "Pague minhas contas e ganhe o direito de cuidar da minha vida..."
Você ainda não teve vontade de gritar isso no Mural de alguém?
Espere, aguarde a sua vez.


Frase célebre (e pouco elegante, como não poderia deixar de ser) dos tempos áureos da facul, “Quem tem cú tem medo”, update 2011- Quem tem Face tem medo.


Ou você ainda não terminou um relacionamento com alguém que tenha um Perfil? Ou começou um? Pense bem, logo mais isso não vai ser a exceção. Aguarde, e veja se vai resistir a ver TODOS OS DIAS o que a pessoa postou, as fotos das viagens e dos finais de semana dela, e o mais ardido, instigante e dolorido, o que as outras postam no Mural dele.
E a ex louca que acha que você está escrevendo em mensagens cifradas só pra ela entender?


Não mencionando todos os contatos profissionais e blábláblá, não tem o que discutir os ganhos e proveitos de um espaço onde tem email, vídeo, foto, aliás, andei notando um acontecimento interessante, os emails na minha caixa de entrada se reduziram aos do meu avô, da minha tia e aos do DVDs de aprenda a dançar com Carlinhos de Jesus (fora os de trabalho).

Ah Zuckerberg, guardasse essa idéia pra você e seus amigos nerds, o que você fez com a gente?


Ninguém + vê TV (nem manda email).


Ou tem alguma série que consegue ganhar do Big Brother em tempo real das pessoas da sua própria vida? Que revolucionário deixarmos de ser expectadores sentados no sofá para nos tornarmos anfitriões, personagens e autores da mídia virtual.

Não existe + solidão no trânsito, você encontra um amigo que não vê há 6 anos numa festa de aniversário e: “Eu vi as suas fotos em Barcelona, como foi a viagem?”.



A intimidade e a privacidade terão que ser revistas em novos termos.


E eu não vou acabar escrevendo que a voz e a pele são os contatos que realmente importam porque Jesus, já tem gente sem Iphone e Blackberry o suficiente pra falar isso!

Aliás, uma pesquisa com certeza paga por essas duas empresas garante que quem tem esses dois aparelhinhos faz X % + sexo que as pessoas que não tem, então amigos nostálgicos, se a questão é de voz e de pele, se adiantem!

Mas anyway, aproveitando a onda das atualidades, estou lançando, com minhas sócias Paris Hilton e Lindsay Lohan a mais nova casa de Rehab e Detox do momento.

Facebook Rehabilitation, para os que já reduziram as horas de sono em mais de 4 horas por causa da ferramenta, os que passaram a comer só comida requentada no microondas (pirigando estar estragada), os que aumentaram a dose de ansiolítico porque não sabem não responder aos amigos que pululam online para conversar, aos que saíram pra beber por ter sido excluído do perfil de alguém. Os que postaram + de 3 vezes na semana frases com sentidos homônimos aos "Caralho, vai cuidar da sua vida!"


Deixe seu Iphone/Ipad e seu Blackberry na entrada, pegue sua dose de Rivotril e venha para as sessões de terapia em grupo falar:


“No que você está pensando agora”.

Por Mirabelle
Funciono por Facebook/ SMS/ bbm/ WhatsApp Messenger

sábado, 3 de setembro de 2011

Dançar com você


De manhã minha vontade de calor não é suficiente pra apressar o quente a chegar antes.

Acordo depois de lanche de madrugada com ainda mais fome, porque é fome de outra coisa, que não se mata com comida, no matter quanto x-burger com batata frita, Milk shake e pizza requentada.

Fome de volta de balada. É aquela fome que a gente vê criaturas devorando lanches na madrugada, uma fome que mistura chapa de padaria, vodka, queijo, cimento, cerveja e fumaça (mas na hora nem parece ruim). A fome-de-outra-coisa, fome de algo que se foi procurar e não achou e voltou com menos nome, no negativo, dando fome. A barriga voltou mais vazia do que foi, roncando, exigente, nervosa. Estranho que come-se isso, cheio de maionese, e vai se emagrecendo. Provavelmente pelo poder desnutritivo calórico que vai consumindo outras coisas por dentro.


A voz da Vanessa da Mata, que é tão de manhã, que dá vontade de andar descalça e amarrar o cabelo (aquele cabelo) com uma flor de chita, e fazer suco de manga, e lavar a louça que ficou na pia. Ainda bem que tem ela pra explicar essa fome que continua a roncar a barriga depois de um lanche que você nunca comeria na sua dieta normal.

“Fico desejando nós gastando o mar”

E esse frio que não vai embora?


It feels like years since it's been here.

A voz dela alaranja o ar, e vai dando palavra para a fome que silencia um pouco o barulho que a barriga faz, revolta e exigente por algo (que agora você sabe que não se trata de comida, e talvez que não seja a barriga).

Não é fome não, é outro espaço vazio, desocupado. É vontade de dançar, mas vontade de dançar que não se mata dançando em qualquer lanchonete, vontade de dançar caprichosa, seleta, exclusiva, esfomeada.


“Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você”


(Amado- Vanessa da Mata)


+ um pouquinho de Vanessa da Mata
"Vem
Que eu sei que você tem vontade
Que eu sei que você tem saudade de mim
Antes que haja enfermidade, que eu não me recupere mais
"


Por Mirabelle




(Foto de Dane Shitagui, fotógrafa havaiana que fotografa bailarinas em NY)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poderosa

A maioria dos que já estiveram em feiras hippies, em raves e os viajantes viajeiros que passaram por qualquer Chapada (dos Veadeiros, Diamantina, Guimarães), ou por Arraial, Caraíva, Maromba, Itaúnas, enfim, muitos dos lugares lindos do Brasil se depararam com o que restou dos hippies, movimento que virou o pessoal da Nova Era na década de 90, uns poucos participaram das raves no começo. Esse pessoal fala a mesma coisa, sobre o calendário Maia, o dia fora do tempo, e todo aquele papo de conexão com a natureza e tal e blá e pá. Junto com os intelectuais do calendário Maia tem os que mostram os “trampo” sempre iniciando a conversa com o famoso “Olá que tal?”

Pra ser sincera sempre morri de preguiça dessa gente toda, apesar de respeitar as crenças de toda e qualquer pessoa, um amigo querido dizia que acredita e respeita até a crença no monstro do lago Ness. Não duvido que minha especial preguiça com esse pessoal provenha de umas lembranças infantis da minha mãe levando a mim e ao meu irmão para ver disco voador e nada, nada, falando que a gente tinha que mastigar o tal do arroz integral com gersal 30 vezes.

Dizem que por causa do solo rico em cristal a Chapada dos Veadeiros em especial concentra um certo tipo de energia, aí vem todas as histórias de discos voadores e todas as idéias esvoaçantes a esse respeito. Mas enfim...procurando um lugar para comer em Alto Paraíso eu e um amigo em tom jocoso brincávamos com os nomes dos estabelecimentos comerciais batizados pelos proprietários com os pronomes reveladores das crenças locais, tais como: Aquarius, Cristal Lilás, Alquimia e por aí vai.

Mas, você acorda e pela manhã vai por estradinhas que fariam Van Gogh trocar a Provence pela Chapada, tais as cores daquele lugar, a poeira de talco é de um marrom rosa que sobe no carro, na boca, nas árvores retorcidas do cerrado e em uma quebra da estrada um ipê amarelo florido brilha as florzinhas que parecem que vão sair voando no azul mais profundo que o céu já fez.

Caminhando por um canyon alto você mergulha e a pele quente arrepia na água fria, vai boiando na corrente que te leva por vezes mais rápido, em outras curvas mais devagar até uma prainha de areia e a brincadeira de criança grande de água gelada com sol quente deixa a gente alegrinha com esse brinquedo que Deus inventou e deixou ali, vazio, sem ninguém, só pra você e pra ele. E sem perceber você se sente grata.

Só porque é sábado depois da pizza tem lua cheia e você sobe em um morrinho e acaba pensando que a lua nunca esteve tão perto e sem nenhuma religiosidade especial dá vontade de rezar e de chorar, e dá pra entender o que antes parecia uma brincadeira, dá vontade de ter uma filha e chamá-la de Lua Lilás (ou Morena). E esses pensamentos não parecem seus, parecem só se manifestarem em você porque você está ali, entre a lua e o chão.
A Chapada não te faz sair se preparando para o que o calendário Maia diz sobre o fim do mundo em 2012, te faz pensar na poderosa mudança.

Contra todas as suas crenças, quando você se vê de ponta cabeça, trocando aquele filme que todo mundo fala que “tem que ver” por uma cerveja, quando troca dormir bem por dormir mal, quando fala o que antes não ousava dizer, quando acha um porre aquele filme alemão em preto e branco e se percebe achando as pessoas criaturas interessantíssimas e pára para conversar, por causa da lua e da água não dá pra negar uma Poderosa Presença.


Quando você entende o que desgostava e vai se tornando um pouco do que criticava, pensa na

Poderosa Chapada.

E só para não sair do clima... eu prefiro seer essa metamorfose ambulante...

Por Mirabelle