segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Fashion moment 2: meu look de inverno ganhou elogios, u-hu!



Quero compartilhar aqui a emoção de, hoje, ter conseguido não passar desapercebida no meio daquele monte do tons negros, marrons, negros, marrons, negros do guarda-roupa de inverno, que tem sempre mais ou menos a mesma cara, e cumprir com um dos meus objetivos adaptativos às estações do ano europeias: sentir-me bem vestida no inverno!

Vejam só: fui trabalhar com um vestidinho marrom trapézio que chega até acima do joelho, de uma lã gostosa cor chocolate, minhas botas pretas e estreando meias-calças com desenhos florais bonitinhos também pretas. Duas colegas vieram dizer que o vestido era bonito e que tinham gostado! E em momentos totalmente diferentes! Me achei a fashion-queen do bom gosto invernal por uns 5 minutos! Iu-huuu!

Empolgações à parte, acho que um dos maiores desafios de se adaptar ao frio é, além do frio em si com sua depressãozinha embutida no pacote, o desafio de:

1) aprender a se vestir sem passar frio;

2) aprender a se vestir com um mínimo de praticidade já que é um tal de tira casaco, põe casaco – e cachecol, gorro, luva, o escambáu;

3) não ficar sempre com a mesma cara (imagina que TODOS os dias você sai de casa com o MESMO sobretudo poderoso por uns 4 meses, e varia entre dois pares de sapato...)

4) resistir à tentação de ficar de pijama ou com qualquer outra roupa molambenta, mas quentinha e confortável, quando você está em casa

5) Ter um guarda-roupa de inverno que dê conta de tudo isso e caiba na sua casa (caber só no seu armário é totalmente utópico).

Vamos destrinchar um pouco o tema, step by step, como já diriam aqueles garotos novos no quarteirão. A gente começa hoje e termina na sexta com um por dia, que tal?

***

1) aprender a se vestir sem passar frio

Nós, morenas, branquelas, loiras, ruivas e mulatas tropicais, não nascemos sabendo fazer isso. Algumas nascem sabendo sambar; outras, nascem sabendo andar com saltos muito altos, outras nascem com mãos e pés divinamente bem cuidados. Mas se vestir para o friozão não está no nosso DNA. Algumas dicas bem-vindas:

- Mantenha o pescoço e os pés quentes. Isso já vai te manter bem mais aquecida. Os cachecóis de lã costumam ser uns trambolhos muito volumosos. Mas há outras opções: uma variedade de **lenços**, com tecidos que vão dos mais leves aos mais pesados, que você pode escolher de acordo com o tamanho do frio. Além do mais, é um acessório barato, que pode transformar ou dar um toque especial no visual.
O outro grande aliado são as **botas**. Invista em ao menos um bom par de botas por estação (elas costumam custar caro, mas o conforto e calor que te proporcionam as tornam fundamentais). E, com seus pés e pernas quentes, dá até para usar saia sem passar frio.

- Lembre-se: todos os lugares em que você vai estar têm calefação. Então, você não precisa se empacotar como se fosse ficar horas e horas exposta à intempérie. Você vai sair de casa, andar um pouco e entrar no metrô, no supermercado, numa loja, no trabalho. Não vai dar tempo de você morrer de frio. E, se for continuar andando, seu corpo vai esquentar com o exercício. Então, não tenha esse medo inicial do frio desconhecido. Ele não é nenhum bicho-papão.

- Com os dois pontos anteriores em mente, pense no que você vai vestir. O básico: calça, camiseta de manga comprida (para que o que você colocar por cima, em geral de tecido sintético, não fique te pinicando), um suéter. Esqueça aquelas blusas de lã grossa tricotadas pela vovó. São muito volumosas e travam os movimentos. Escolha suéteres de malha fina, mas quentinha, tipo caxemira. Aí, além disso, é combinar com os acessórios mencionados e o sobretudo, mas esse só na hora de ir pra rua.

by Darling Darling

domingo, 17 de janeiro de 2010

Frase do dia


"Quando eu for muito grande, vou dirigir um jipe e beijar na boca, tá bom?"

do Júnior, 3 anos, neste sábado caminhando
pela rua rumo à quitanda.

[e nós nos perguntamos: quem está fazendo companhia a nosso heroico G.I. Joe? Será uma enfermeira apaixonante? Quem não acredita que é nosso Joe na foto, vá lá conferir todos seus dotes fotogênicos, é impressionante! http://gijoelive.blogspot.com/ ]

W.W.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Entre o natal e o ano-novo


Sempre tive a nítida sensação de que entre os dias 26 de dezembro e 31 de dezembro todas as pessoas estavam na praia.

Isso foi antes dos muitos anos de análise (e dos 2 últimos anos da minha vida) me levarem a considerar outras possibilidades diferentes das minhas próprias.
Parece fácil, mas se pesquisarem bem ao seu redor observarão que o julgamento absolutamente auto-referente da realidade é o padrão. Explico-me: a grande parte das pessoas (e esse dado estatisticamente válido está embasado nas mais recentes pesquisas presentes nas revistas científicas de indexagem internacional) não é capaz de enxergar, perceber ou julgar o mundo, a realidade, os outros a não ser pelas suas estreitas lentes, que contém as próprias experiências de vida, as coisas que aprendeu e em conseqüência as limitações e preconceitos pessoais.
Não é por pura maldade, é apenas difícil, para a grande maioria das pessoas (vejam a validade estatística dessa generalização) olhar o diferente e considerá-lo apenas diferente sem colocar a questão nas gavetas mentais de certo/errado, feio/bonito, melhor/pior.

Um exemplo: ontem, eu comendo uma especiaria delivery da cozinha japonesa (ou a variação deliciosa que fizeram disso aqui no Brasil) e uma querida pessoa ao meu lado confabulando sobre o alimento em questão: Eu não acredito que você come isso aí, é branco, é cebola? Eca, você vai dar o que sobrou para o porteiro? Dá uma coca junto pra disfarçar, apesar de que esse cheiro já está em todo o quarteirão.

Essa era a exata sensação que eu tinha sobre passar esses dias intermediários no próprio lar. E eu achava que a cidade ficava vazia, até ir ao shopping nessa tarde de chuva. OK, nem todo mundo vai a praia e faz alguma coisa desses dias esquisitos entre uma festa e outra. Muitas pessoas vão trocar os presentes que não gostaram.

Então, como nem o porteiro está lá na portaria (mesmo com os anos de análise e com a observação da quantidade exorbitante de pessoas no shopping continuo achando que não tem ninguém na cidade e que eu deveria estar em outro lugar) e não pára de chover, compartilho o meu mais novo vício, capaz de preencher com risadas solitárias esses strange days (citando Jim Morrison para esse post ficar mais cool).

Uma cilada da vida de solteira é a pessoa viciar em alguém, e por alguém I mean uma idéia ilusória de qualquer ser do outro sexo que se mova no espaço (ou do mesmo sexo, sem preconceitos nesse blog).
E quero salientar que ter um espaço para algo além de si mesma é um ponto importante na escala de saúde mental, mas as mulheres em especial são fãs convictas desse tipo de vício, imagino que cada um de vocês já tenha participado da alucinação causada pela abstinência da substância viciante em questão em conversas cheias de angústia como: Ele não ligou, eu mandei a mensagem há 7 horas, porque em 7 horas ele não responde????? Eu deixei um recado com o porteiro, eu vi o porteiro interfonar, porque ele age como se não tivesse recebido nada ou ainda: porque ele só me liga quando volta da balada sozinho as 3:30h?


Na tentativa de não cair nesse “mundo das drogas” (adoro quando ouço pessoas dizerem “mundo das drogas”, ficaria perto do “mundo de Marlboro”?), do vício e da abstinência comecei a assistir séries em dayli bases (daqui a pouco vocês vão entender a razão das mais que excessivas expressões in english). Sem pretensão, só porque não tenho cable TV e tinha uns DVDs por aí.
Eis que a verdade é... passei do vício em Sex and the City para o vício em The Big Bang Theory. Não me critiquem, sei que outras pessoas passaram por problemas semelhantes com “24 horas”, “Lost” e “Grey´s Anatomy”.

Quem já passou por isso entende agora as muitas expressões em inglês né? Assim como com o vício em uma substância masculina em que a usuária passa a achar lindo tudo o que o cara em questão gosta, e assim como em Sex and The City em que você passa a narrar o seu próprio dia com a voz da Carrie começando com: “In New York city...” mas esse efeito colateral só aparece em altas dosagens de exposição à episódios ininterruptos (se você tem as temporadas completas em DVD sabe do que estou falando).

Com Big Bang Theory você passa a incluir expressões em inglês que acha interessantes nos seus diálogos (ou nos seus pensamentos, o que já aponta para um grau mais grave de adicção) e também a considerar o que o Sheldon diria em determinada situação. Eu ainda não comecei a incluir o Sheldon como uma referência nas conversas como: O Sheldon diria... porque aí as pessoas começariam a estranhar.
Outras diferença é que na fase Sex and the City você tem vontade de tomar Cosmoplitan (apesar desse drink não constar nos cardápios de quase nenhum lugar, meninas: peçam ao barman, eles fazem mesmo assim!) e na Big Bang Theory você passa a pedir comida tailandesa em casa, ou ter inexplicáveis desejos por hamburguers.

Se você tem um nerd dentro de você, se você estudou em uma universidade na qual a metodologia científica era mais importante do que o que você tinha pra dizer, se você era proibido de dizer qualquer coisa sem referenciar-se em autores consagrados, ou se você é uma pessoa divertida, assista para a gente poder conversar “in Sheldon bases”.

E acreditem, parece mentira, mas eu conheço pessoas que não conseguem falar com mulheres/pessoas sem citar referências bibliográficas (ou que não conseguem falar com mulheres at all).

Depois me digam se vocês também não torcem pela Penny e pelo Leonard, e quanto à minha culpa... what the hell, as pessoas falam de personagens da novela como se fosse a prima de todo mundo, você chega num lugar e a pessoa vai logo te insultando: Esse esmalte/ corte de cabelo/ vestido é igual ao da fulaninha da novela!!!

Pelo menos no Big Bang Theory a gente ainda aprende um pouco de física... só pra não perder a nerd que tenho dentro de mim.
Feliz ano novo para todos (e se for passar o reveillon em casa, dica: têm as duas primeiras temporadas em dvd)!!!

Por Mirabelle

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O caracol continua o estrelato: Exaltação do outono, parte 2

[continuação do post de 6 de dezembro, que conta a odisseia do Júnior (e de seus pais) para caçar um caracol e levá-lo para a escola...]


Amanhece o dia e o Júnior oferece um despertar difícil, não consegue acordar de jeito nenhum, chora, reclama, esperneia, pede pra dormir mais. É preciso desenvolver a arte da argumentação nesses momentos e, com algo de criatividade, proponho: vamos ver como o caracol acordou para você levá-lo para a escola?

Funciona. Júnior levanta e reage, vou à cozinha buscar a lesminha amanhecida, solenemente ignorada até aquele momento por meu eu matinal ainda entorpecido. Pero... pero... ela está de cabeça pra baixo, grudada no Magipack... e na parte final da concha havia um buraco... MEU DEUS!!! Será que o caracol morreu? Não posso acreditar no tamanho da decepção e do trauma que isso acarretaria no Júnior em plena segunda-feira de manhã. Olho melhor pro pote e vejo que há uns cocozinhos no fundo. Reflito. Pode ser que o molusco terrestre ainda esteja vivo. Prendo a respiração e, depois de alguns momentos de tensão, vejo que a lesminha sai da concha, mostra as anteninhas e solto um suspiro de alívio enquanto entôo, mentalmente: “Cargol treu banya!”.

E assim vou eu e a Zilminha levar o Júnior pra escola. Ele sai de casa orgulhoso, com seu copinho na mão, pronto para realizar descobrimentos científicos interessantíssimos junto de seus coleguinhas, todos com entre 2 e 3 anos de idade. Caminhamos pelo bairro com cuidado, pois o próprio Júnior está levando o recipiente (eu tenho as mãos ocupadas empurrando o carrinho da Zilminha). Outros pequenos cientistas vão chegando com seus potes com caracóis. Ali, no meio daquele furor matinal, na esquina da escola, a poucos passos do objetivo final, o Júnior, num desses momentos de imprevisibilidade da vida, tropeça. E o copinho voa, se espatifa em mil e um pedaços e meu futuro Darwin abre o berreiro: “Buááááá... o caracol... meu caracol...”

A mãe respira fundo, coloca o freio no carrinho da bebê, agacha-se com elegância no meio da calçada (para não dizer que ficou de quatro), recupera o pedaço de Magipack e, com suas próprias mãos e superando o nojo, resgata o caracol-anão do meio dos cacos de vidro e cascalho. Pronto. Problema contornado, a Ciência está a salvo.

Finalmente, o Júnior cruza o portão da escola exitoso, exultante, com seu pequeno molusco ainda com vida embrulhado no pedaço enrugado de Magipack e chega ao objetivo final. Missão cumprida.


DESFECHO
Pela tarde, depois de buscar o Júnior, pergunto a ele como foi o dia e o estudo dos caracóis.
- A Sara pisou no meu caracol!

E é assim como nosso caracol, que quase escapou pela parede da cozinha, que acreditei ter morrido por algum componente corrosivo do Magipack em sua noite de cárcere, e que sobreviveu à queda e destruição daquilo em que era transportado em uma rua transitada esquivando-se da possibilidade de ser pisoteado, chega a seu fim, cumprindo o destino de sacrificar sua vida em nome da ciência.

by Womber Woman

O Zé Carioca, o Bofe Escândalo, o Rabino e o Carona.



Era um vez a Margarida, que depois de grandes titubeações resolveu aparecer. Ela morava numa casa na floresta, veio para a cidade, aproveitou a moda (que voltou) de saia e shorts curtos, cortou também o cabelo (foi a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar- Alceu Valença), trocou o carro pela bicicleta e levantou os olhos para ver quem passava.

E encontrou primeiro com o Zé Carioca. O Zé ia ao Maracanã ver os jogos do Flamengo e até cantou pra ela “uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, tocava pandeiro num grupo de samba, dirigia um fusca azul calcinha. Sotaque carregado, folgado, “tirava onda” (para usar do carioquês) dos “erres” da Margarida, levou-a num samba na lage de algum lugar com vista pra baía de Guanabara e pra tomar um banho de cachoeira na floresta da Tijuca.
Tudo que o Rio tem de melhor, mas o Zé não parava de repetir, a cada lugar lindo, a cada vista, a cada música: “Olha o que eu te proporciono”. Mesmo sendo a Margarida grande amante da cultura brasileira e sentindo-se até honrada de topar com tal folclórica figura, ela cansou de agradecer por tudo o que lhe estava sendo proporcionado, e então, na porta da nova casa na cidade, conheceu o Bofe Escândalo.

O Bofe Escândalo bronzeava-se ao sol do meio dia, Ipod e celular a postos, 6:30h da manhã era o encontro quase diário com seu personal, que fazia um bom trabalho visto o braço do Bofe ser maior que a perna da Margarida. Certa noite, ao redor de despretensiosa mesa o Bofe diz que não come a noite, lhe explica que sua dieta orientada para a hipertrofia muscular não permite nem refrigerantes que não sejam “zero”, nem nada que seja diferente de batatas e albumina. Margarida sente-se constrangida por ser ela mesma assim tão desatenta às questões nutricionais, ao mesmo tempo em que faz questão de não pedir mais nada light, já que alguém tinha que ser homem suficiente para pedir: Coca normal por favor!
Diferente do Zé o Bofe Escândalo aprendera lições de gentileza com a Rainha Elizabeth e comportava-se com esmero, mas não podia passar perto de um espelho que perdia-se da conversa ao arrumar o cabelo. De nada adiantava Margarida tentar salvar o Bofe do afogamento, já acontecido com Narciso, no espelho. Sua imagem bronzeada, forte, de cabelos levemente grisalhos já o tinham levado para longe dela.

E então Margarida continuou andando, mais ressabiada que no início, já não tão mais aparecida assim deu de encontro com o Rabino. Ele tinha uma foto de bela sinagoga israelense no celular e falava com aquele sotaque próprio de quem fala hebraico (Margarida imagina que seja uma espécie de moda local de Higienópolis). Morara em Nova York e em Israel e animou-se exageradamente ao saber das raízes judaicas de Margarida. Da noite em que se conheceram até ela acordar na manhã seguinte o Rabino telefonara 17 vezes e deixara 5 mensagens. Margarida fugiu assustada, apesar das várias curiosas perguntas que ela ainda tinha para lhe fazer a respeito da vida em Nova York e se ele conhecera Bernie Madoff (aquele que foi preso, criador da Nasdak).

Margarida fechou um pouco o vidro do carro, mais ressabiada com as ilustres esquisitas figuras com quem ela foi topando no caminho. E do mundo virtual e do túnel do tempo surgiu o Carona.
Há 9 anos atrás Margarida tinha dado carona para o Carona numa ilha do outro lado do planeta, pelas ferramentas mágicas da internet o Carona encontrara-a e declarava seu amor por Margarida, não correspondido na última década. No momento da troca de correios eletrônicos o Carona, solitário, afogava suas mágoas no mar da Indonésia, Margarida não teve dó dele.

A Margarida agora está menos aparecida, mais pensativa, continua na cidade, ela considera a fauna masculina algo de exótico, mas ás vezes se assusta e foge de volta pra floresta para descansar das outras espécies entre as suas amigas e família de margaridas.

por Mirabelle.
Mais fotos sensacionais no www.thesartorialist.com

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O ponto em que estou



Estive em São Paulo. Revisitei horas de trânsito a fio fundida ao assento suado do ônibus. Tracei destinos mais além do ponto inicial e final de uma linha, procurando meus próprios inícios e fins, minhas próprias fronteiras. Eu já fui daqui, mas e hoje, de onde sou? Agora tenho mais medo da chuva.

Tudo é mais ou menos igual, mas sutilmente diferente. Como a linha verde de metrô que você sabe até onde te leva, mas cresceu um pouco, encurta tempos e distâncias. Ou o taxista afável que me conta de seus filhos, da esposa – pai orgulhoso – e, ao me perguntar os itinerários, não percebe minha hesitação. A Rebouças ainda é a Rebouças, mas agora tem corredores de ônibus nos quais me confundo sem saber se devo descer pela direita ou esquerda do veículo, tudo depende do ponto em que você está. Copio os demais passageiros, acho que ainda sei quando devo me levantar para saltar na boca do metrô Consolação.

Fui à USP. Utilizei um professor querido como pretexto, mas me dei conta de que a visita, na verdade, era a mim mesma. O professor me contou anedotas: quando era pequeno, foi pescador de urubus. Um dia eu direi que vinha aqui todos os dias. Que meu radar ainda funciona para identificar a centenas de metros os espécimes locais: os que vão ao campus para correr; os funcionários; os militantes do SINTUSP; os estudantes descolados; a beleza interessante das alunas de Letras; os engenheiros; os mestrandos; os próprios professores. Que tenho esse vínculo afetivo com esse pedaço horizontal da cidade repleto de bibliotecas, digressões e árvores porque aqui me tornei quem sou.

Aqui reencontro aquela parte de mim de que gosto e percebo que ela, também, continua mais ou menos igual, mas sutilmente diferente. Em algum lugar há uma livraria mais bonita, com mais luz e mais histórias, ou um elevador novo, melhor preparado para subir até onde você tem que chegar. Como os do professor que pescava urubus. Ele me sorri, me despede, há dois continentes e algumas feiras onde podemos nos encontrar casualmente uma próxima vez. Dessa vez foi de propósito: ele é uma das colunas que vim visitar.

Darling Darling

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Volta pra casa



Estou naquela que chamei de minha casa por mais de década e meia. As pessoas que moraram comigo continuam aqui e, como que instintivamente, quando penso em voltar pra casa, penso em chegar aqui. Algo em meu peito relaxa aliviado ao ser acolhido pelo barulho da chuva, os sons de terra molhada, o cheiro de jardim ao abrir amplas janelas. Uma minúscula aranha me observa no banheiro.

Mas esta já não é a minha casa. Meus dedos encontraram a pele daquele que é perfeita ao meu tato, o denso cabelo onde gostam de se perder, paragens ao redor da nuca que me invadem de aromas. Esse pedaço de matéria humana no espaço-tempo com quem troquei palavras em outra língua, receitas secretas, as obscenidades mais íntimas e ao redor de quem aprendi a orbitar descobrindo que é possível ser anã-marrom, estar no céu e no chão como estrela e planeta.

Minha casa é ao lado dele, onde ele estiver, e ele não está aqui. Faço do título deste texto um chamado – a ele, a mim mesma, a uma fuga: vem.

[Foto de Ana Lira. Título: Boa Vista. Muitas outras ainda mais lindas aqui: http://www.flickr.com/photos/ana_lira]

Darling Darling