terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Estou.


O vento me contorna,
reflito a luz numa parte lisa
guardo uma sombra n´outra curva
e faço calor.


Quero adormecer dentro
e acordar sem vazar.
Até que lugar é eu,
onde te começa?


Preciso caber só (e toda) nesse espaço
entre detrás do osso e o arrepio
um pouco além da pele
lá fora, já sua,
onde ainda eu assobio.


Por Pommelle

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vontade-de-Jornal-Nacional


Não tenho tv a cabo (medida atual de nova fase da vida) e nem liguei a tv nova na antena do prédio, resultado: só dvd. Sou daquelas chatas que gostam de filme iraniano (juro que gosto, vi um em Barcelona que mais parecia uma poesia, “5 de la tarde”), peguei uma encomenda na Cultura hoje de um filme da B.B. (Brigitte Bardot). Sou daquelas chatas que não sossegam até ter visto essas coisas clássicas das quais a gente sempre ouve falar, mas nunca viu, por exemplo: Breakfast at Tiffany´s (traduzido por Bonequinha de Luxo), que tem aquela foto da Audrey Hepburn com uma piteira. Dos clássicos aos atuais, vejo e revejo as temporadas (aleatoriamente) do Sex and the City, mas hoje, surpreendentemente numa quinta-feira, veio aquela vontade conhecida de Jornal Nacional.


Vontade-de-jornal-nacional é mais que uma vontade, são várias vontades unidas sob a égide do Bonner e da Fátima. É vontade de noite normal, comum. Sabem aquele sentimento de mediocridade confortadora de ser mais um entre tantos milhões a ouvir o “boa noite” do William Bonner?
Poderia ser uma vontade-de-novela, mas essa é mais perigosa porque continua no outro dia, e normalmente é legal e você vai querer ver de novo, jornal nacional dá uma overdose de mães chorando por um filho que sumiu há 17 anos que você não tem vontade de ver de novo pelos próximos 7 meses.
Faz parte dessa vontade o desejo por qualquer comida da infância: coxinha de frango no forno, macarrão de gravatinha, arroz com ovo e tomate picado, farofa. Sei que a vontade-de-jornal-nacional é um alerta de colo, mas vamos deixar as interpretações acerca da angústia para o chato do analista (coitado, ele nem é chato, a minha voz interna que é).


É vontade de noite devagar, sem música, nem cerveja, nem prosecco, nem mensagem no celular. Junto dessa vontade vem vontade de que tudo esteja pronto e funcionando sem que você tenha que fazer nada, como quando a gente chega pra sentar à mesa quando criança e está tudo lá.


Vontade de não ter nada a ver com fazer as coisas funcionarem, ou acontecerem.


Naquele texto clichezíssimo e fofo do “Wear sunscreen” (vale a pena, vai lá no Google!), ele fala que nostalgia é reciclar as coisas por um valor maior do que de fato valeram. Pode ser. Mas que é demais de reconfortante ouvir o William, da TV do vizinho, e sentir que se o jornal nacional continua lá, falando que o Maluf (agora vai!) pode ser incriminado por ter acobertado o desaparecimento de presos políticos na ditadura (oh, jura?), se tudo continua igual, é porque existe consistência no mundo, uniformidade, mesmice. E nesses dias o igual é delicioso, e mais: necessário.


A vontade-de-jornal-nacional me visita em média duas vezes ao ano. Nos outros 363 dias a uniformidade e o mesmo (não o do elevador, o da mesmice mesmo) me apavoram (ou tem algo mais aterrorizante que o Faustão domingo?). Mas tem dia que me apavora mais a sensação volátil de suflê. Da vida suflê, inchada por fora, e com queijo derretido dentro, nada de persistente, de eterno (jornal nacional é eterno).


Viajar- como disse um querido viajador (que aliás está viajando hoje)- destampa a cabeça. O dia-dia faz a nossa cabeça de marmita mesmo, mas já tive a sensação, viajando, de destampar tanto que quase saí flutuando que nem bexiga de gás. Já sentiram, bem dentro da pele, que tanto faz o seu trabalho, a cidade onde você mora, ou qualquer outra escolha que, no momento marmita-tampada parece indiscutível e eterna?


É nesses dias em que a vertigem de todas as possibilidades se avoluma dentro da gente que a musiquinha do JN nos traz pelo pé àquela realidade que parece de verdade (que muita gente acredita) mas a gente sabe que não é nada disso.

A gente sabe que o Maluf não vai ser preso (ou não vai permanecer preso), que o jogador do Palmeiras vai dizer que a concentração é importante porque o jogo contra o Atlético vai ser difícil e todas essas realidades-de-marmita.


Mas que delícia que é marmita, de vez em quando, com o feijão misturado na farofa e um ovo em cima, e couve então? Com jornal nacional, combinação perfeita! Porque nem só de filme iraniano e confit de pato vive uma pessoa.

Por Mirabelle misturada com Cocobelle

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quanto mais homem menos homem?



(Relatório 1.0 expedição Terra)


Grande área: antropologia cultural inter-planetária.
Local: Terra.
Era cultural: Pós-modernidade.
Foco de pesquisa: vestuário, moradia, comunicação grupal, relacionamento sexual dos habitantes locais.
Metodologia: 1. Participação como sujeito do evento em observação (Levi-Srauss). 2. Revisão sistemática da literatura terrestre dos campos: sociologia, antropologia, mitologia, psicanálise, religião e filosofia. 3. Questionário informal aplicado aos habitantes locais.


Pesquisador XL500 (não é nome de caminhonete nem de arma): sujeito em forma de habitante do sexo feminino (o que se refere ao corpo biológico como nasceu), solteira (referente ao estado civil, o que implica em sujeito não casado com outro de sexo oposto, ou do mesmo sexo, como o código jurídico de alguns países consideram), na faixa dos 20 aos 30 anos (contados em anos solares).


Evento n. 1: “Balada GLS”- festa, evento que costuma acontecer a noite (referente à transação da Terra em seu próprio eixo). G: gay. L: lésbica. S: simpatizante.
Objetivo específico: aproximação e convivência espacial com gêneros sexuais distintos com intuito de estabelecer parâmetros e concluir tipologias no que se refere a vestuário, comunicação e relacionamento.
Objetivo geral: incluir grande dossiê sobre a sexualidade e gênero interplanetário.

Diário de observação em campo: com o espírito dos antropólogos franceses que habitaram aldeias indígenas, dirijo-me ao local sábado a noite, 24 graus. Cidade de 14 milhões de habitantes, meio do feriado. Informam-me que tudo está vazio porque todo mundo foi a praia (anotado: terrestres vão à praia no feriado). Espécie feminina que me acompanha oferece dado curioso:


“Com esse carrão a gente vai fazer sucesso, homem adora esse tipo de carro, meio tanquinho de guerra, é tipo o brinquedo que eles adoravam quando crianças, só que de gente grande!”


Outro dado relevante: “Essa balada é gay, fui uma vez, é meio pesado, aqueles caras se pegando, não sei não!” - fala da fonte feminina.
Chegando: não há reação quanto ao veículo com o qual nos transportamos.

Hipótese 1: gay não liga pra carro.


Recentemente em minhas pesquisas ouvi, em tom jocoso, que: “Mulher gosta de dinheiro, quem gosta de homem é gay”. So far, a realidade oferece lastro para tal compreensão.
Na fila: GLS? Gays homens muitos (é o que parece pelos estudos que fiz). Lésbicas? Não. Simpatizantes? Não é possível saber. Penso em alguma espécie de placa, tiara com luz piscante ou cor de camiseta que identifique tão importantes decisões individuais, mas logo considero que a sugestão poderia não ser bem aceita. Entro.
A segurança revista-me duas vezes, uma antes de ver a bolsa, outra depois. Seria ela a primeira lésbica que identifico na balada? Questionamento pendente.
Lá dentro. Lugar agradável, com espaço aberto, duas pistas, bares distribuídos. 90% de terrestres organicamente masculinos. Esse, pelo que percebo, é o único dado passível de apreensão imediata (alertaram-me para o fato dessa observação ser possível tão somente não haja a presença de travestis). A categoria de gênero e escolha de parceiro sexual são áreas que começo a desconfiar serem bem mais complexas do que a literatura é capaz de apreender.


Em minhas pesquisas identifiquei algumas características marcadamente femininas: trejeitos, delicadeza, voz mais fina, movimentos suaves. Alguns terrestres masculinos (organicamente) apresentam tais características, o que facilita a identificação por uma opção homossexual: gostam da mesma coisa que uma mulher (em se tratando de escolha de parceiro). No entanto, em campo (balada GLS), uma informação factual conflita com meu arcabouço teórico.


Homens, como definido por diversos autores e pela maneira com que são ilustrados pela cultura em mitos, romances, poemas, novelas etc, são indivíduos com força física superior à espécie feminina. Tendo, portanto, desenvolvido ao longo da história, trabalhos fisicamente mais desgastantes e utilizado, inclusive, tal diferença física como parte do jogo de sedução e acasalamento com seus pares de sexo oposto para fins de perpetuação da espécie humana. Os “homens” (no sentido orgânico) dessa balada são os mais fortes que já vi desde que cheguei à Terra. A noite é um mar de músculos e barrigas definidas, auxiliadas por algum tipo de produto que reflete a luz: dançarinos de bermuda e botas bezuntados de óleo.

Segundo a literatura clássica ali estariam os Hércules pós-modernos. Pelo que estudei os gregos adorariam a pós modernidade!


Questionamento teórico paradoxal: quanto mais homem menos homem?

Sendo o primeiro no sentido físico e o segundo no de escolha sexual.

Diante da cena repetida de músculos e barrigas (não sei se o uniforme era calça jeans, tatuagem e mais nada, ou se era apenas a ditadura da moda) a mostra da espécie feminina (amiga) conclui: "Se eu fosse homem eu seria gay, olha que lindo!"
À medida que o álcool age no entorpecimento do SNC (sistema nervoso central- esse é outro assunto que merece pesquisa aprofundada) o que era esquisito passa a ser visto como lindo.


Tendo chegado um momento, já perto de amanhecer, em que uma espécie feminina um tanto acabrunhada de início passa a mão carinhosamente em duas carecas (faria parte do uniforme também?) de um casal de caras enormes “se pegando” (como se diz por aqui) e exclama: “Que liiiiiindo!”
(to be continued! )


Por XL500

sábado, 21 de novembro de 2009

Esmalte verde = Mesa redonda/ Placar





Esse calor... quarta fiz voz manhosa para uma amiga me acompanhar em uma, duas, três, quatro (etc)... cervejas lá pelas 10 e meia da noite, 27 graus, bar na rua, daqueles podrinhos, com qualquer coisa frita deliciosa, de croquete a bolinho de bacalhau. Não dava pra dormir. Entendi nessa semana o mistério de quarta-feira, há algumas semanas volto de um compromisso tarde e me pego sentindo que as paredes e assentos domésticos têm pulga. Não é uma invasão de insetos coceirentos: é dia de jogo!!!!!

Nunca morei em prédio, e ainda não concebo um lar em tão diminutas proporções. Continuo, como a minha cachorrinha, que fica parada na porta da sala como fazia na do quarto anterior, a pensar que depois daquela porta seguem-se os próximos cômodos da casa. Mas não, depois daquela porta seguem outros diminutos larzinhos de onde, de quarta, um som se repete infinitas vezes após as 21:30h. Aquele sxplet da latinha abrindo. Entendi, QUARTA É DIA DE JOGO!!!


Que alegria que é noite de jogo, 27 graus com a trilha sonora sxplet, independente de quem jogue (nunca tenho a menor idéia), segundo um primo corinthiano roxo, domingo é dia de jogo do Coringão, independente de quem esteja jogando. Quarta é dia de sxplet.

Então, novembro é mês daquela outra trilha sonora recheada de efeitos sonoros dos anos 80 que nos remete a tatuagens de pôr-do-sol com golfinhos. “Vem chegando o verão, muito amor no coração, essa magia colorida”. Não haveria pessoa melhor a falar de verão que a carioquésima Fernanda Abreu.

E não sei se empolgada pelos sxplets da vida, ou pelas revistas de moda, parece-me que esse verão traz coisas de fato novas que gostaria de dividir com vocês: scarpins fetichosos, biquínis e maiôs Bond girls, maquiagem mineral mate (desculpem meninos, aqui começamos a falar em outra língua mesmo, mas continuem nos acompanhando, se você tem interesse no universo feminino- ahá, agora não dá coragem de desistir de ler né? Nada como uma ameaça à masculinidade).

Digam aí chéries, o que pensam do esmalte verde que invadiu os salões de beleza em tons de menta (clarinho) e verde mais escuro? A Chanel lançou o esmalte JADE, de um verde chique e a Colorama e a Risqué fizeram suas versões brasileiras. Quem já não usou ou ouviu falar do Rosa-Chiclete, aquele rosa cor-de-sapato-da-barbie?

Aliás, uma menina daquelas muito cor-de-rosa falou para a sua psicóloga, ao ver as unhas da profissional esmaltadas com a tal novidade: “A minha Barbie tem um sapato dessa cor!” Só as meninas para se entenderem mesmo.

Testemunho de uma amiga ao usar o esmalte verde: “Você se sente meio estranha, sabe quando a gente fica roxa, e depois fica verde? Dá essa impressão de estar verde de depois de roxa”. Comentário: isso pode ser bom! Hehehe.

E os scarpins da Arezzo. Cores: coral, menta, rosa chok, vermelho- daquele vermelho de desenho animado do vestido da Jessica Habbit, lambram? Fetichozíssimos.

Experimentei o escarpim meia-pata (com aquele salto “embutido” que deixa o salto enorme sem ficar desconfortável- antes era usado só por travestis e pela Claudia Raia, mas agora é legal e moderno) peep toe (aberto na frente, dedinhos a mostra) verde menta e achei o máximo.

Comentei com uma espécie feminina ao lado: “Isso é uma coisa que nenhum homem entende!”. Falado isso um espécie masculina olha para o sapato com uma expressão de dúvida e confusão e exclama: “Porque um sapato dessa cor?”

É meninas, se vocês comprarem um scarpin verde menta e uma carteira coral (de verniz pra brilhar ainda mais!) não esperem que seus companheiros entendam, não é uma questão de gostar ou desgostar é de não alcançar o que a coisa significa, esse verbo bom em inglês que não temos em português: realize, eles não “realizam”. Assim como nós não realizamos a idéia da discussão ad eternun a respeito do Flamengo ter que empatar para o São Paulo continuar em primeiro.

Essas coisas são coisas nossas (desde pequenas, como nos mostra a menina que entende exatamente a idéia do rosa-chiclete) e para não deixar os meninos de fora, faço uma aproximação desses mundos que parecem não apenas distantes um do outro, mas que parecem vibrar em ondas de espécies distintas.

Essa conversa de esmalte verde, para mim, tem a mesma função, serve para a mesma coisa que aqueles programas de TV infindáveis sobre futebol. Esmalte verde = mesa redonda.

Viva a quarta sxplet de jogo de futebol que a gente sai com uma amiga pra falar de esmalte verde. Esses assuntos, que são mais como bolsões de falta absoluta de utilidade são como um balneário de descanso (um resort mental) do que é tido como importante, aquele espaço do qual fala Winnicott entre o que é de fora (realidade objetiva) e o que é de dentro (da gente).

Uma dica meninas: prestem atenção na discussão futebolística (se na hora não houver a mão uma espécie feminina pra falar de esmalte), eles falam deles, e falam da bola, e falam de novo de si mesmos, e falam do Wagner Love (a-do-ro esse nome, não é o máximo?). Como a gente, que fala da cor do scarpin, e fala da vida estar colorida, ou não. E fala do rosa-chiclete, e fala da Barbie que existe em nós mesmas.

Uma frase do grande frasista e romancista Oscar Wilde para fechar (e me garantir das críticas a respeito da futilidade do assunto):

“A mim dai-me o supérfluo, que o necessário todo mundo pode tê-lo.” (Oscar Wilde)

D. W. Winnicott- pediatra e psicanalista inglês que criou o conceito de espaço transicional/potencial. Área de experiência emocional que transita entre a percepção objetiva da realidade e a apreensão subjetiva. A brincadeira habita o espaço transicional, assim como a cultura e a religião. Os fetiches (no bom sentido também). Área de criatividade, de potencial para o nascimento do novo.

Por Cocobelle
(Pra quem gostou: leia também o post "Quase trinta" de 08 de setembro aqui mesmo no varaldedentro )

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Minha versão do dia


“agora que a madrugada se esvaiu - quem me devolve as intensidades do azul...?”
Ondjaki

Sem a mais mínima pretensão de conseguir me expressar como Mirabelle, uma das maiores devoradoras de livros que conheço, com invejável quilometragem de linhas lidas, resolvi pegar uma carona no post Minha versão da noite e compartilhar uma recente descoberta literária da nossa pátria língua portuguesa (que bom que Pessoa pensou assim e podemos adotá-lo como nosso compatriota!). Mesmo que culturalmente sejamos “países separados por uma mesma língua”, pois não sei sequer dizer o que poderia haver em comum (ou não) entre o Brasil e o Moçambique de Mia Couto ou a Angola de Ondjaki.

Ondjaki, esse moço que eu descobri, nasceu em Luanda em 1977 (ou seja, deve ter acabado de fazer trintinha, retomando outro dos nossos tópicos. A gente podia perguntar pra ele se ele já fez alguma plástica).

Ah, você nunca ouviu falar dele? Pois deveria. O rapaz é uma voz potente que vem de longe e tive que conhecê-lo lendo uma edição mexicana do romance Bom dia camaradas. Um dia, numa dessas conversas despretensiosas de sentar pra tomar um café-com-leite no meio da tarde, um amigo mexicano me falou dele e me deu o livro de presente. Era a edição em espanhol, e minha primeira reação foi de ficar bloqueada, pois era muito estranha a idéia de ler um texto escrito em português na tradução. Mas não agüentei de curiosidade e, como aqui no exílio não é tão simples encontrar a edição na língua materna, acabei me lançando.

Superado o estranhamento, gostei muito. E gostei mais ainda quando descobri que no site dele há um fragmento generoso em português. Gente, o sabor de ler as palavras que a gente entende e vêm de outro país é delicioso. E também o que a se aprende. O pano de fundo: a infância de crianças angolanas que estudaram com professores cubanos (e comunistas, claro, os camaradas!) que vieram para ajudar a reconstruir o país. O narrador é um dos meninos.

Agora trouxeram pra mim duas outras edições do Ondjaki made in Portugal, publicadas pela editora Caminho: E se amanhã o medo, de contos, e O Assobiador, outro romance curto, o próximo da minha fila de leituras depois da graphic novel lésbica e autobiográfica que estou terminando.

Aí folheando as primeiras páginas do Assobiador, encontrei esse trecho que abre o livro - e dialoga com o do Mia Couto que a Mirabelle citou:
...depois do amanhecer é quando já terei morrido. Nesse momento só conhecerei as belas coisas: as certas, as apetecidas. Quando o sol me banhar, serei outro: sem espelhos, sem tristezas. Terei falecido, mas terei renascido. Assobiarei melódicas entoações. Desprestigiadas mas, enfim, leves.
O Assobiador
Noite ou dia, depende de onde estão as estrelas que você vê, se perto demais para ofuscar as outras ou longe e serenas para permitir o escuro. Dois autores e um mesmo tema, duas vozes que brilham com raios discretos e ajudam a formar essa nossa constelação literária em língua portuguesa, que eu torço pra gerar muitos super stars.

Serviço:

Ondjaki – site oficial, com trechos deliciosos:
http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html

No Brasil você encontra:
Bom dia camaradas, Ed. Agir, 2006.
O Avodezanove e o Segredo dos Soviéticos, Companhia das Letras, 2009

E, como o moço também é poeta e antenado, você pode acompanhar os últimos versos no Twitter (achei genial esse movimento que em vez de poetry, faz poetwi!):
http://twitter.com/ondjaki

Fui.

Womber Woman

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Velha (humana) x Alien (de outro planeta)




Uma amiga recentemente me disse: não existe pessoa feia, e sim gente pobre!

Tenho menos de 30 anos, não me considero parte de nenhum grupo no qual a questão estética é um valor em especial no sentido profissional (como modelos, atrizes, e sei lá mais o quê) e acho que em torno de 75% das minhas amigas próximas (também antes dos 30) já fizeram algum “procedimento”: lipo coxa, barriga, costas, joelho, prótese nos seios. Imagino quando chegar aos 50...

Sem falar no Michael Jackson e sem tomar uma postura crítica natureba- hippie- religiosa partidária do corpo-como-Deus-o-fez ou o raio que o parta de ideologias des-pensantes diante da questão, acho bizarro no que vem se transformando a idéia da beleza física atualmente. Devem ter mais clínicas de estética na cidade do que padaria.

Uma consulta a dermatologista. Sugestão da profissional (sem que eu perguntasse): Você poderia fazer um sei-lá-o-quê no quadril para eliminar essa gordura localizada. Saí abalada. Nunca pensei nesses termos no meu quadril, até então eu achava que ser assim, como sou, era uma característica familiar herdada, as mulheres da minha família são assim, coisa que até então eu tomava como característica de equipadas mulheres e boas mães.

A médica transformou toda a questão de pertencimento à uma história (negros, italianos, alemães) inscrita no corpo em defeito. E se fosse um cirurgião que me tivesse marcado com aquelas canetas então, já estaria perguntando em quantas vezes ele divide no cartão e já que o anestesista tá lá mesmo (ouvi isso várias vezes de diferentes amigas), porque não fazer também queixo, umbigo e maxilar?

E não falo em uma indústria de luxo que se abastece de madames endinheiradas e entediadas, falo de qualquer uma que junta seus vários milhares de reais a duras penas para fazer uma lipo que não dá em nada porque a criatura não emagreceu, nem faz exercício e blá blá blá. Depois de grandes as pessoas voltaram a acreditar em qualquer coisa que prometa soluções mágicas e instantâneas, o cirurgião plástico virou a fada-madrinha das aspirantes a princesas pós-modernas.

Mesmo que ninguém saiba como envelhecer, porque na história humana é a primeira vez que se vive tanto, e as mulheres- em especial- não parecem se reconhecer com seus rostos e corpos de 35, 50, 68 e 75 anos e quando a gente (meninas) põe lingerie dá aquele estranhamento porque a gente compra achando (mesmo que bem no fundo) que nos tornaremos uma das Angels da Victoria Secret, e isso não acontece...

Mesmo que tudo isso justifique cada “ml” de prótese/botox que entra e de gordura que vai, tenho uma sensação não só de ressabiamento, crítica ou desconfiança, mas quando olho para a Elza Soares, para a Donatella Versace, para a Ana Maria Braga arrepia-me uma estranha impressão de estarmos abandonando algo de mais fundamental que rugas, marcas e gordura localizada, algo de essencialmente humano.

Porque vamos combinar que elas não parecem mais novas, elas só conseguem se parecer de outro planeta no qual a idade deve ser medida em anos astrais diferentes.
Por Cocobelle

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

5,4,3,2,1... Êêêê Reveillon!!!


Sei que sou uma voz solitária em meio á balbúrdia de roupas brancas, Iemanjá, cidra Cereser e tal, mas quando começo a pensar no Reveillon um mal-estar se apodera de minha pessoa. Não é pessimismo, é experiência, conto-lhes o início do trauma: pais separados, natal com a mãe, ano-novo com o pai, iuk!


Já passei ano novo na casa de tia evangélica distante num lugar mais distante ainda (quase no Paraguai), com uma amiga holendesa do meu pai que veio conhecer o Brasil (ok, o ano novo dela foi muito pior que o meu!) vendo aquelas filmagens bizarras do Edir Macedo acendendo charuto com dinheiro, e olha que esse foi dos menos ruins, imaginem!


Sei que em geral me acham chata, que seja, sou chata, mas quem acha legal trânsito de 8 horas até Ubatuba, chevete tocando funk, superocupação da areia, falta de dinheiro no caixa eletrônico e cidra cereser quente bebida no bico, me perdoem, perdi a fila da parcela Polyana da minha alma na entrada.


Acho essa coisa de ano novo um horror! Aí penso, ok, praias em São Paulo, Rio ou qualquer lugar para onde seja possível dirigir menos de 1000 kilômetros não, tudo muito lotado, mais longe: Bahia, Ceará. Imagino aquela areia branca que vai looonge, onde se anda até não ver mais ninguém e pode voltar e ver pessoas bonitas sem pagode, vendedor de biju, mindoim, tatuagem de henna e bilhete de loteria. E então me pego novamente (não me canso de me surpreender, todo o ano a mesma coisa me surpreende) surpresa com os preços das viagens. Ir para a Bahia de avião e ficar numa pousada custa mais que uma lua de mel nesses hotéis (chatos, mas tudo bem) do Caribe.
Sem contar a viagem, repasso as festas de fim de ano. Será que sempre fui nas erradas? Não, lembro de um luau na praia que foi legal! Quando chega perto do fim do ano começam a aparecer roupas lindas brancas nas vitrines, com brilhinhos e tal, me esqueci quantas vezes peguei-me pensando: mas onde eu vou com isso?


Não sei vocês chéries, que são pessoas finas e bem relacionadas, mas eu nunca passei a meia-noite com vestido brilhante tomando champagne...


O mais legal é parar para ouvir as histórias de ano novo das pessoas, porque teoricamente falar que passou a virada em Copacabana é legal, mas pergunta se choveu, se tinha o que comer e como a pessoa com a respectiva família de 20 pessoas voltou para a Barra depois...


Aí me apego a um antigo plano: eu, cachorros e a retrospectiva 2009 na TV. Não vejo Globo, mas esse seria um momento épico, um ato de resistência contra a superlotação de tudo, os preços altos, os amigos cada um em um lugar. Ou melhor, um ato de bravura que reverenciasse a minha incapacidade de planejar ou achar um ano novo bom.


Retrospectiva com o Faustão é demais, não me atreveria a começar um ano com esse avant-prémière de tamanho mal agouro. Outra idéia me ocorre: réveillon eu, cachorros e a coleção de filmes do Bergman, melhor, mas não sei se mais ou menos deprimente.


Aí você pensa: praia é caro, vou para o interior, Minas Gerais, uma pousadinha tranqüila. Quando chega lá entende porque é tranqüilo, porque ninguém quer ir para esse lugar onde as estrelas da festa são: O Doce de Leite e Caminhar. E hotel fazenda? Você cogita, e então pensa que talvez cavalos, patos e bingo não seriam bem o que você estava imaginando para a comemoração de fim de ano.


Sei que eu seria mais feliz se fosse menos chata, se fosse mais como uma amiga querida a quem admiro a infinita condição de ir em qualquer lugar, de Cancun a rodeio, bar de blues a Forró ao ar livre no frio, balada de música sertaneja, festival de pesca no Mato Grosso... não péra aí, o Faustão começa a não me parecer tão ruim assim.


Vejo na revista da minha imaginação uma festa com música boa, amigos, vestido branco, champagne gelada, em taça. Sou tonta de acreditar nessa propaganda que protetor solar e a CVC fazem? Talvez. Mas não canso de esperançar essa festa que nunca fui.

Por Cocobelle